LG_jc.gif (3670 bytes) CB_brasil.gif (6025 bytes)
MP_brasil.gif (5256 bytes)



ARTIGO

O País de Pernambuco

por JOSÉ LUIZ DELGADO*

O que acontece com o futebol pernambucano é bem um símbolo do que acontece com Pernambuco de modo geral. Campeonatos nacionais, torneio de campeões, copa nordeste etc podem ter seu valor e seu sabor, mas absolutamente não se comparam ao entusiasmo com que o pernambucano torce no campeonato estadual. Jogos com equipes de outros estados, o pernambucano acompanha com razoável interesse mas nunca com a exaltação, a paixão, o ardor, o quase desvario, com que vibra no campeonato local. Quanto mais jogos entre equipes alheias... O pernambucano pode até assistir a elas, mas com curiosidade meramente esportiva, sem nelas jamais empenhar a alma. Isso que aconteceu agora com um tal torneio de campeões, disputado em duas capitais nordestinas, mas com impressionante entusiasmo popular, parece inimaginável em Pernambuco: não tem a menor graça interessar-se assim por times de outros estados. O que vale, para o pernambucano, é a disputa local, a eterna rivalidade entre Náutico, Sport, Santa Cruz. Para qualquer deles, até ser campeão brasileiro valerá menos do que ser campeão pernambucano; ou melhor, só vale mais na medida em que repercute na gozação doméstica, revelando uma superioridade que pode ser exibida diante dos rivais locais.

A sensação que se tem é a de que Pernambuco de algum modo se basta. Pernambuco parece ter uma consciência muito forte de sua pujança, do seu valor, ou do quanto, literalmente, o País inteiro lhe deve. Embora, muito pernambucanamente, não faça alarde disso, não saia apregoando suas glórias. E embora, também, a pujança do ponto de vista econômico seja muito mais realidade do passado, do que do presente – mas Pernambuco também sabe que isso pode e deve ser recuperado. A gente daqui parece sentir-se, em primeiro lugar, pernambucana e, só depois, brasileira. Será traço característico nosso ou seria assim em toda parte? Poderiam sociólogos competentes, como meus amigos Roberto Motta ou Sebastiáo Vila Nova, trazer alguma luz a respeito?

E não é nada infundada essa consciência de Pernambuco do próprio valor. Pernambuco sabe não só o que representou para a história brasileira, para a construção mesma da nacionalidade: primeira capitania desenvolvida; o heroísmo da expulsão dos holandeses, que deu ao País a consciência da própria identidade; toda a epopéia da conquista do Nordeste, Pernambuco fazendo ao longo da costa, até o longínquo Norte, o mesmo esforço colonizador dos bandeirantes penetrando pelos sertões; o irredentismo e o pioneirismo das jornadas da independência, 1817, 1821, 1824. Pernambuco sabe também o que culturalmente representa hoje. O bom gosto de nossa culinária, sem os excessos que se notam noutras partes. A excelência de nosso barroco, do qual um grande perito já disse ser o mais equilibrado de todos os barrocos brasileiros. A beleza e a fartura de ritmos da música popular pernambucana, muito mais notável do que, por exemplo, a baiana, embora sem a louvação orquestrada que se faz em torno dessa. A exuberância de nossa arte plástica: que outro Estado poderá gabar-se de tantos pintores do melhor nível? Ou o romance, o teatro, a poesia, o ensaio: a literatura pernambucana não fica a dever, como conjunto, a nenhum Estado da Federação, nem aqueles que atraem talentos das outras regiões. A mediocridade atual da Academia Brasileira de Letras (com óbvias exceções), por exemplo, é de pasmar. Há muito defendo a idéia de que o Governo do Estado deveria entupir as nossas estradas, com outdoors que, divulgando os nossos valores, reforçassem a consciência de nossa grandeza: “esta é a terra de Gilberto Freyre, de Manoel Bandeira, de Mauro Mota, de Joaquim Nabuco”, de tantos e tantos mais.

Pernambuco sabe o que vale. É tão consciente de si mesmo que, ao invés de disputar com os outros, entrega-se a esquentadas pelejas internas – políticas ou esportivas. Haverá lugar em que o desentendimento político seja mais radical do que aqui? No futebol, a glória do hexa do Náutico, que ainda demorará muito tempo para ser alcançada, alimenta a inveja e a rivalidade.

*José Luiz Delgado é professor universitário


Jornal do Commercio
Recife - 15.07.2001
Domingo