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DISCO
O underground é o que há de mais fino

Compositores que produzem música de qualidade são obrigados a se refugiar nos pequenos selos

por JOSÉ TELES

O lucro fácil ditado pelo ritmo de ocasião obrigou cantores e instrumentistas que não rezam pela cartilha da mediocridade a abrigarem-se em selo nanicos, tornando-se quase underground, mas nem por isso perdendo a classe, nem o dom de criar grande música. Eis três exemplos.

O pernambucano Heraldo do Monte, um dos grandes violonistas do País, nos anos 60 participou intensamente da efervescência musical da época, como um dos integrantes do lendário Quarteto Novo (ele, Airto Moreira, Téo de Barros e Hermeto Pascoal). Seus discos individuais são poucos, raros e muitos bons. O mais recente intitula-se Viola Nordestina (Kuarup Discos). O ‘nordestina’ aí não tem nada com o modismo do pé-de-serra. Heraldo do Monte empunha viola, violões de aço e nylon, baixola e contrabaixo, para interpretar, a seu modo, de Capiba a Rosil Cavalcanti.

Com uma mãozinha do filho Luís do Monte (violão) e Déo de Araújo (percussão) Heraldo do Monte esbanja talento, em clássicos como Qui nem jiló, Sebastiana, Maria Bethânia, e peças assinadas por ele. Dada a vulgaridade que impera no rádio e na TV, Viola Nordestina torna-se quase um trabalho erudito.

Guinga é o músico dos músicos. Há anos, corre por fora da raia, nunca perdendo um páreo. Cine Baronesa é o novo CD de Guinga (Caravelas). Ele produz uma música aparentemente fácil, mas que traz no bojo tanta sofisticação harmônica que causa estranheza a ouvidos acostumados aos três acordes na melodia, e quatro ou cinco encontros vocálicos nas letras da maioria do que se toca nas FMs.

Esse, porém, não é o melhor disco de Guinga, ou pelo menos não o mais acessível. Os temas instrumentais são maioria (oito em um repertório de 13 composições), e são as melhores faixas do CD. Melodia branca, que abre e encerra o disco, tem a leveza de um Satie, ou Cole Porter. Aldir Blanc, parceiro mais constante de Guinga, peca outra vez por excesso de citações nas letras, que não raro assemelham-se a uma carta enigmática. Isso não acontece com Nei Lopes, letrista de No fundo do rio (cantada por Guinga). Invejável o time de músicos que atua nessa seleção musical (Gilson Peranzetta, Armando Marçal, Suzano, Jorge Helder). No disco, presença ainda de Fátima Guedes, Quarteto Maogani, Chico Buarque e do jornalista Sérgio Cabral (felizmente só falando).

Trilhas Brasileiras (Caravelas), com o pianista Alberto Rosenblit, é uma preciosa coleção de composições para filmes imaginários. Rosenblit é autor de trilhas e músicas incidentais para séries e novelas globais, e aqui ele se esmera. Em dez faixas, vai de bossa jobiniana (De bem com a vida), de música americana (Gershwiniana), a um tema inspirado em trilhas de grandes filmes (Happy end). Algumas músicas contrabalançam sofisticação com leveza. Um bom exemplo é Vargem grande, que lembra os bons momentos de Jimmy Webb. Discos como esses são anticorpos contra as pragas sonoras que nos agridem o senso e o bom gosto diariamente.

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Jornal do Commercio
Recife - 15.07.2001
Domingo