Especialistas associam a técnica a um programa de desenho automático de computador, recuperando todos os detalhes externos e internos de velhos imóveis
por CLEIDE ALVES
Professores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) estão difundindo uma técnica pouco comum no Brasil: a fotogrametria, voltada para a recuperação do patrimônio histórico. O trabalho consiste em obter medidas precisas do objeto a ser restaurado (prédios, altares de igreja) a partir de fotografias. “É o mesmo princípio da execução dos mapas”, diz o engenheiro cartógrafo Jaime Mendonça, que divide o trabalho com o engenheiro mecânico Davi Ferraz.
De posse das fotografias e das dimensões da peça, os professores definem o desenho e as medidas essenciais para se fazer a intervenção. Para conseguir imagens geometricamente precisas e com dimensões completas, eles associam a técnica a um programa de desenho automático de computador. “O resultado são desenhos frontais, todo detalhado, e outros em terceira dimensão, com a volumetria da peça”, diz Jaime Mendonça. Segundo ele, essa mesma tecnologia permitiu a recuperação da Europa pós-guerra.
Um dos trabalhos resultantes da técnica vai ser apresentado na 53ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que se realiza em Salvador (BA). O projeto foi elaborado por solicitação do Porto Digital para o prédio de número 32 da Rua Vital de Oliveira, no Bairro do Recife, que depois de restaurado será a nova sede da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente de Pernambuco (Sectma).
Provavelmente construído em 1919, o edifício ocupa trechos das Ruas Alfredo Lisboa e de São Jorge. O imóvel foi projetado pela Societé de Construcion du Fort de Pernambouc para abrigar a Fiscalização do Porto do Recife. Todos os adornos e detalhes das fachadas foram mapeados pelos engenheiros. A restauração será feita pelo arquiteto Jorge Passos, especialista em patrimônio histórico.
DETALHES – Jaime Mendonça e Davi Ferraz fizeram o levantamento geométrico de outro imóvel do Bairro do Recife, o antigo prédio da Associação Comercial de Pernambuco. O trabalho foi requisitado pela Fundação Roberto Marinho para implantação de um sistema especial de iluminação no imóvel, pelo Projeto Luz e Tecnologia no Recife Antigo. A técnica também foi empregada no altar-mor da Basílica de São Bento, em Olinda, e na Capela de Nossa Senhora da Conceição, no Parque da Jaqueira.
O mapeamento do altar-mor da Basílica de São Bento foi uma parceria da UFPE com a Fundação Joaquim Nabuco. A peça está sendo restaurada para ser exposta nas unidades do Museu Guggenheim de Nova Iorque (EUA) e de Bilbao (Espanha), numa mostra do barroco brasileiro. “Levamos quatro meses para concluir, pelo nível de detalhamento”, informa Jaime Mendonça. O altar tem 13,8 metros de altura por 7,60 metros de largura. “É o equivalente a um prédio de quatro andares”, compara o engenheiro.
Segundo ele, o trabalho é importante porque permitirá o encaixe perfeito das peças do altar-mor durante a remontagem no Guggenheim e na igreja, quando o altar voltar para Olinda. O altar foi todo desmontado e vai seguir para o exterior acondicionado em caixas. “Também pudemos dimensionar o volume dessas caixas e o espaço que o altar vai ocupar nos museus”. Para esse projeto, os professores também usaram equipamentos de fotogrametria da 3ª Divisão de Levantamento do Exército, em Olinda.