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CURTO E GROSSO
José Teles

Videogame não está com nada

Deve haver algo errado com um mundo em que um monte de gente grande perde tempo, debatendo, comentando, fazendo fila, pra ver videogame. A senhora atribui à terceira idade essa minha opinião retrógrada, pode ser. Mas eu jamais deixaria minha cadeira de balanço e me aventuraria até um ‘shopcenter’ pra assistir a um videogame. Não tô dizendo isso porque, num misto de inépcia e leseira, nunca consegui mexer com comandos do videogame, nem sequer daqueles a pilhas, que se vendem nos camelôs. Cada qual com suas idiossincrasias, inclusive essa, a de chamar mania de idiossincrasia.

Confesso que não tô conseguindo acompanhar a geração dos meus bisnetos, inclusive a ‘jeneusse palidê’ aqui da redação, que aqui é todo mundo com uma tez de personagem de romance do século 19. Não entendo bem porque os ‘mudernos’ só apreciam praia que fica em meio a uma floresta, por trás de uma montanha, nos confins da Bahia. Essas praias, por alguma razão que ignoro (sou um tremendo ignorante), emanam energia e mistério. E devem emanar mesmo, porque o pessoal volta de lá tão descorado feito quando partiu. Passei a ir à praia com menos freqüência pra não ser considerado mais atrasado do que já sou. Eis que tergiversei sobremaneira.

Meu problema é que não consigo acompanhar a velocidade vertiginosa da informação via Internet, de forma que quando vi todo mundo falando em Lara Croft, imaginei que se tratasse de cantora nova inglesa, uma dessas jovens de jeito estranhíssimo, que só toma sopa de canudinho, tal a quantidade de argola, brinco, cruz de metal, que fincam na boca, piercing, o nome. Pra assaltar um ‘muderno’ desses nem precisa arma de fogo, basta um imã. Mas cá tô a tergiversar.

Então eu falava de Lara Croft, que não tenho idéia quem é, de onde veio e pra onde vai. Vi, na capa da Rolling Stone, a moça que interpreta a heroína do vídeo game, muito da bonitinha, e com uma boca tão jeitosinha que deveria ser tombada contra piercings.

A senhora interrompe-me, dizendo que são os heróis de hoje, como nós, da terceira idade, tínhamos, nos anos 30, os nossos Jim das Selvas, Mandrake, Tarzan, Maciste, Supermarvel, Flash Gordon, com seus respectivos doidinhos. Triste isso, dos artistas dos filmes de aventuras atuais não se acompanharem do doidinho. O doidinho, caso a senhora, ignore, eram aqueles caras meio abilolados, e muito engraçados, que contrapontuavam as cenas de suspense com alguma palhaçada. Epa, lá vem tergiversação novamente.

Tudo bem, a senhora tem razão, e eu dou-lhe a minha (como diriam os canalhas pequerruchos do século acima referido). Saí incontáveis vezes de casa para assistir a filmes de Tarzan, meu preferido era Gordon Scott, que também fazia Hércules, Maciste, e tudo quando fosse herói parrudo. Jim das Selvas, não lembro ter chegado a ver no cinema. Vi muito Zorro, Lassie, Felpudo, o Cão Feiticeiro, Rintintin, com o Cabo Rusty (faz tanto tempo, que o Cabo, se vivo for, deve ser general reformado).

Só tem uma diferença, básica, que é uma palavra que os ‘mudernos’ adoram. Quando via esses troços eu não passava de entrebaerto botão entrefechado cactus, com umas dez, onze estiagens. Tivesse essa idade hoje (botei pra correr há muitos anos a criança que havia dentro de mim), com certeza eu enfrentaria a fila de Lara Croft, e comentaria o troço com meus coleguinhas, mas parei de ver filme juvenil desde os 16. Vai ver, é mal da idade, que a velhice é uma coisa triste.

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Jornal do Commercio
Recife - 15.07.2001
Domingo