Há mais de um ano o Governo anunciou o Programa de Valorização do Artesanato. A maior parte das ações, no entanto, não saiu do papel
por MARIANA CAMAROTTI
Abril de 2000. O Governo do Estado lança o Programa de Valorização do Artesanato Pernambucano e promete capacitar artesões, criar uma linha de crédito sem burocracias para a categoria e construir dois centros de referência para venda e exposição permanente dos produtos. Tudo isso ainda no ano passado.
Julho de 2001. Nenhum artesão foi capacitado e os centros nem sequer têm os projetos concluídos. A linha de financiamento foi criada pelo Banco do Nordeste, mas a burocracia impede o sucesso do Crediartesão. Mesmo com a realização da Feira Nacional de Negócios do Artesanato (Fenneart), que termina amanhã, no Centro de Convenções, o desempenho do Governo vem sendo bastante criticado.
O coordenador do departamento de produção e comercialização da Associação Nordestina dos Artesãos (Associarte), Enoque José da Silva, diz que, em um ano de programa, as principais metas não foram atingidas. “Nossa dificuldade é ter produto de qualidade e atender às exigências do comprador. Por isso precisamos da capacitação para usar uma melhor a matéria-prima e padronizar tamanho e peso das peças”, explica.
Assim como a maioria dos artesões, o coordenador da Associarte reclama da falta de espaço permanente para divulgação da produção local, onde deveria ter exposição e venda. Ele diz que participar de feiras em shoppings do Recife e Caruaru promovidas pelo Governo é importante, mas traz encomendas de longo prazo e dá oportunidade a poucos.
“A Associarte, por exemplo, recebeu um estande de 1,2 metro quadrado em uma feira e precisou fazer rodízio dos produtos de 80 artesões. “Para piorar ainda mais a situação, a feira programada para o mês passado no Shopping Center Recife, que aproveitaria o período de férias, maior fluxo de turistas, não foi realizada.
O artesão Severino Borges, que trabalha com xilogravuras, também não viu resultados do programa e engrossa o coro das reclamações. “Até agora, estamos só na expectativa. Tudo seria bem melhor se tivesse um local para vender”. Para conseguir dar saída à sua produção, Borges paga R$ 30 semanalmente para participar do Domingo na Rua – exposição no Centro do Recife que acontece toda semana.
Por ser o artesanato uma atividade que geralmente é realizada de maneira informal e no ambiente familiar, aprender a gerenciar o negócio é fundamental para expandir as vendas e conseguir lucros. Esse item também estava previsto no programa.
FALTOU VERBA – A Agência de Negócios de Pernambuco (AD-Diper), ligada à Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Esportes, é a responsável pelo desenvolvimento do programa. O presidente da Agência, Kleber Dantas, reconhece que as ações estão aquém do prometido e diz que faltaram recursos para a execução.
“Não fizemos o dever de casa”, diz o secretário de Desenvolvimento Econômico, Carlos Eduardo Cadoca, em relação à construção dos centros de referência – um na Região Metropolitana do Recife (RMR) e o outro em Bezerros (Agreste). Ele garante que o projeto de Bezerros fica pronto este mês. Já o outro não tem previsão. Ainda está indefinido quanto será investido.
CURSOS – De acordo com a coordenadora do programa na AD-Diper, Ângela Cahú, os cursos de capacitação vão ter início este mês em seis municípios do Estado. “Primeiro serão dados cursos de sensibilização para melhorar a auto-estima dos artesões”, explica. Está marcado o início no próximo dia 20 em Poção, Ibimirim, Passira, Tracunhaém, Olinda e Lagoa do Carro. Serão 480 artesões capacitados pelo Sebrae, num investimento de R$ 227,4 mil do Estado e R$ 25 mil do Sebrae.
Em um segundo momento, terão início as aulas de organização, gestão e produção. “Depois de capacitados, eles terão um acompanhamento de quatro monitores durante 45 dias”, diz Cahú. Segundo ela, serão gastos R$ 172,8 mil do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) e R$ 30 mil do Estado.