A crise energética terá conseqüências permanentes sobre a economia brasileira e o comportamento de empresas e consumidores
por HELIANE ROSENTHAL
O racionamento de energia determinado pelo Governo Federal terá conseqüências muito mais duradouras do que até o final do ano, como é a expectativa da maioria dos brasileiros. Um dos principais rebatimentos será o aumento considerável, que está sendo esperado para o próximo ano, nas contas de luz. Além disso, pela primeira vez, desde 1987, a população está precisando conviver com um racionamento de energia, depois de anos de uso até com um certo nível de desperdício.
Um dos grandes entraves, de agora em diante, para o consumo desmedido será a conta de luz no fim do mês. Como o setor de distribuição está quase totalmente privatizado, as empresas não querem arriscar os elevados investimentos já realizados. Ou seja, vão querer repassar para as tarifas as perdas geradas por problemas como a crise energética. “Os investimentos no setor são de retorno a longo prazo, mas é preciso ter uma garantia de remuneração. Não é possível aumentar os riscos de uma hora para a outra”, explica o vice-presidente da Companhia Energética de Pernambuco (Celpe), Roberto Alcoforado. Atualmente, as distribuidoras vêm tentando incluir os custos não-gerenciáveis, como o aumento de impostos, por exemplo, no cálculo do reajuste das tarifas.
Para estabelecer esses percentuais, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) leva em conta o Índice Geral de Preços do Mercado (IGPM) acumulado do ano e outros custos como a tarifa cobrada pelas geradoras. Mesmo assim, os reajustes estão sempre acima da inflação do período.
REAJUSTE – A expectativa é de que, no próximo ano, os percentuais aplicados sejam ainda mais altos. Segundo o diretor da Sistemas Energéticos Regionais (SER), Carlos Mariz, há dois motivos que levarão a um incremento substancial da tarifa. O primeiro é, justamente, de que as empresas de distribuição vão querer repassar para o consumidor os investimentos realizados, pois o volume de vendas, este ano, não foi suficiente.
A segunda razão, e principal, é que, daqui em diante, o aumento do parque gerador estará, basicamente, nas mãos da iniciativa privada. E nenhum projeto de investimento será viabilizado, se não houverem tarifas compensatórias. Essa é uma questão que está relacionada tanto com as distribuidoras que vão investir em geração, quanto com os produtores independentes que terão papel importante no novo modelo energético.
“Nunca mais o nível do consumo voltará aos patamares anteriores ao racionamento. Infelizmente, não há outra saída, a não ser o aumento da tarifa para garantir os investimentos”, garante Mariz. Os consumidores sentirão esse peso em suas contas e, a conseqüência será uma economia permanente de energia.
Além da questão tarifa, os consumidores residenciais, comerciais e industriais, que estão mudando seus hábitos para cumprir as suas metas, deverão incorporar novos hábitos no seu dia-a-dia. Ao contrário do que aconteceu em 87, este ano, a crise energética tomou dimensões bem maiores. Um dos motivos foi a facilidade de acesso de muitas famílias aos eletrodomésticos provocada pelo Plano Real. Em 2001, o nível de consumo é bem maior.