Argentinos sofrem com a atual crise, mas estão mais preocupados é com o que ainda pode ocorrer na já combalida economia portenha
BUENOS AIRES – Nas ruas de Buenos Aires pairava a sensação de que o tão esperado fim da recessão econômica que já dura três anos se prolongaria indefinidamente por causa de El Ajustazo (o ajustaço) do ministro da Economia, Domingo Cavallo. Caminhando com o rosto angustiado pela Avenida Santa Fe, Jessica Boianover, 24 anos, secretária, disse que o ajuste de De la Rúa lhe causa medo, e que a turbulência dos últimos dias poderá continuar. Bioanover afirmou que por precaução de hipotéticos confiscos bancários ou desvalorizações, já tirou dinheiro do banco. Agora só falta um prazo fixo de minha mãe, que vence no dia 23. “Espero que não aconteça nada até lá. Mas tenho muito medo. O dinheiro vou guardar em um cofre lá em casa. E em dólares.”
Boianover não será atingida diretamente por uma eventual desvalorização: “Eu tenho a sorte de trabalhar para uma fundação norte-americana e por isso recebo em dólares. Mas minha mãe e minha irmã sofrerão as conseqüências de uma queda do peso.” Além disso, teme que com a desvalorização volte o fantasma da inflação.
A advogada Corina Alaniz, 33 anos, trabalha no Ministério da Justiça, mas recebe seu salário de um fundo paralelo semi-estatal. “Por enquanto, não serei atingida pelo ajuste salarial que sofrerão meus colegas. Mas não duvido que em pouco tempo driblem a lei para aplicar o ajuste em meu salário também.”
Alaniz, que estava olhando uma vitrine de lingerie na tradicional crua Florida, disse com ironia: “Meu namorado terá que se contentar com a mesma lingerie de sempre. Nada de compras novas por enquanto, já que não sei que salário terei daqui a um ou dois meses.” Segundo ela, com o ajuste as pessoas comprarão menos e mais empresas falirão. “Além disso aumentará a criminalidade. E o grande perigo é que os policiais terão seus salários cortados. Você imagina um policial argentino sem dinheiro? Se ele já é corrupto com o atual salário, com menos será um enorme perigo. Este ajuste incentiva a recessão e a corrupção.”
Alaniz disse que por enquanto realiza todas as compras em pesos, e ninguém lhe exigiu dólares. “Nesse aspecto, a economia continua igual. Ainda não houve pânico.” Alberto Fernández, 69 anos, que possui uma banca de jornais no bairro de Montserrat, considera que o ajustaço vai esfriar a economia. “Ninguém vai pegar um táxi ou comprar um jornal que são luxos dentro da atual crise. O pessoal vai se concentrar nos gastos essenciais e nem isso eles vão conseguir cobrir.” Fernández afirma que foi um militante de toda a vida da UCR, partido do presidente Fernando de la Rúa. “Mas tenho que admitir que na época de Perón (eterno rival da UCR) tratavam os trabalhadores muito melhor do que agora.”