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Iniciativa social e governo O que o discurso e o pouco empenho governamentais não conseguem realizar ou seja, implementar uma política de convivência com a seca, iniciativas de particulares, unidos em associações não oficiais, estão conseguindo. Não se trata de utopia ou proposta de cientista louco. O Estado de Israel, o Texas (nos Estados Unidos), para darmos apenas dois exemplos, há muito fazem isso, convivendo com a aridez que os caracteriza, mas não impede sua prosperidade. Sem obras contra as secas ou contra a aridez (alegria dos nossos políticos de voto de curral). Obras, aliás, na maior parte em benefício de coronéis e não para viabilizar aquela convivência. Quando não são sorvedouros de verbas públicas, sem planejamento e alheias aos interesses comunitários, freqüentemente inacabadas. Ou por haverem perdido o caráter eleitoreiro, ou paralisadas por suspeita de corrupção; que, muito provavelmente, nunca será apurada. Se apurada, ficará sem punição, pois a Justiça esbarra no muro das imunidades, que, entre nós, não serve apenas para proteger o mandato, a liberdade de pensamento e expressão, dos parlamentares, mas para liberá-los para cometer qualquer crime. Recente levantamento listou 17 grandes obras sem continuidade no Nordeste, que já consumiram mais de R$ 800 milhões. Concluídas, poderiam irrigar 60 mil hectares e abastecer cerca de 1,5 milhão de pessoas. Com muitíssimo menos, entidades privadas com espírito público (ONGs etc) estão realizando, nos sertões pernambucanos, programas para melhorar a qualidade de vida das populações, através de mais e melhores conhecimentos, divulgação e multiplicação de experiências. Seu objetivo é provar ao governo que a convivência com a seca é possível, mesmo com poucos recursos, segundo o técnico Mário Farias Júnior, da ONG Diaconia, criada por igrejas protestantes do Nordeste. O Programa de Apoio à Agricultura Familiar da ONG abrange 1.400 famílias de comunidades rurais. Elas têm cisterna para acumular água da chuva, leite de vaca e de cabra para as crianças, mel-de-abelha, frutas e hortaliças plantadas em seus quintais. Ninguém passa fome nem sede, mesmo com a seca que assola a região este ano. A Diaconia se integra à ASA (Articulação do Semi-árido), entidade criada no Recife há dois anos e que tem 400 instituições filiadas. À semelhança do que aconteceu no deserto do Neguev, que os israelenses encheram de oásis, essas entidades estão espalhando oásis pelos sertões, mudando a paisagem da região semi-árida. A vida do sertanejo começa a mudar; já não é mais um tragédia ficar de fora da distribuição de cestas básicas e água, que obedece, segundo testemunhos de moradores da região, a critérios de politicagem (a identidade é o título eleitoral). Em Afogados da Ingazeira,
São José do Egito, Mirandiba, Ouricuri (onde atua a ONG
Caatinga, ajudada pela americana Catholic Relief
Services), há visíveis mudanças. As filiadas da ASA
pretendem construir um milhão de cisternas em cinco
anos, por todo o Semi-árido. Conscientizados, os
sertanejos se organizam em associações rurais,
participam dos conselhos municipais de desenvolvimento,
exigem, do poder público, seus direitos. Um
beneficiário desse trabalho disse que se o governo
fizesse um terço do que esse pessoal fez, não tinha
mais povo vivendo no sufoco no sertão. |
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