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INUSITADO
Apenas a luz e o ar para viver

Há dois anos sem ingerir qualquer tipo de comida, o casal Evelyn Levy e Steve Torrence diz que é possível reprogramar o corpo para se alimentar apenas do ar e da luz do Sol

por LEYLA CUNHA

Há dez anos, se alguém aparecesse na TV dizendo que um ser humano poderia viver sem comer, alimentando-se apenas da energia do Sol e do ar, certamente ninguém daria ouvidos. Não se sabe o porquê, mas, desde que concedeu uma entrevista ao apresentador Jô Soares, em maio, na qual fez essa afirmação e ainda garantiu estar há dois anos somente à base de ar e de luz solar, a escritora e metafísica carioca Evelyn Levy, 40 anos, não parou mais de falar sobre o assunto. Seja em palestras em várias capitais brasileiras, seja em entrevistas para os mais diversos veículos.

No Recife não foi diferente. Ela e o marido, o norte-americano Steve Torrence, 38, que moram na Flórida (EUA), vieram à cidade na última segunda-feira para ministrar uma única palestra com o objetivo de ensinar as pessoas interessadas a reprogramar seus organismos. A estratégia consiste em atrofiar o sistema digestivo e ativar as glândulas pineal e pituitária para conseguir a nutrição por meio da respiração e do ato de olhar para o Sol. O casal acabou dando duas palestras, de mais de três horas cada, com auditório lotado, no bairro dos Aflitos. O mesmo ocorreu no TV Jornal Meio-Dia, quando a apresentadora Graça Araújo entrevistou Evelyn em dois programas seguidos, a pedido dos telespectadores.

Segundo afirmam, a reprogramação orgânica acontece no DNA e é feita em um período de apenas 21 dias. A descoberta é fruto de pesquisas que o casal fez sobre o livro Viver de Luz, onde a autora, a australiana Jasmuheen, não só afirma estar há seis anos sem se alimentar, como ensina o segredo. “Só tínhamos uma possibilidade de comprovar: passando pela experiência”, diz Evelyn. “Depois dos 21 dias, decidimos que não queríamos mais comer.”

Nos primeiros sete dias, continua ela, a pessoa não come nem bebe absolutamente nada. “Ao dar esse choque no organismo, você obriga a pineal e a pituitária a se ativarem, já que as duas são as verdadeiras abastecedoras vitais do ser humano, mas foram atrofiadas pelo sistema digestivo”, explica.

Nos 14 dias restantes, a pessoa passa a tomar água, sucos e frutas. “Os líquidos vão produzir fluidos que ajudarão a eliminar as toxinas do corpo, tornando-o mais leve, sutil”, diz. Nessa fase, então, a pessoa passa a fazer exercícios respiratórios e a olhar para o Sol de manhã cedo, para que as duas glândulas, localizadas no cérebro, possam receber os estímulos da luz pelos nervos dos olhos. “Só pessoas muito conscientes devem fazer isso, pois não se trata de dieta, modismo ou estilo de vida. Estamos falando em reprogramação orgânica”, adverte.

ABSURDO – Para a endocrinologista Geísa Macedo, que chefia o ambulatório de Diabetes do Hospital Agamenon Magalhães, a hipótese da alimentação solar não só é absurda como é impossível alguém sobreviver por 40 dias sem comida. “Sem o alimento, o corpo começa a buscar energia internamente, através da queima das reservas de proteínas, de gorduras, chegando ao ponto de causar perda de musculatura”, explica. Em outras palavras: a pessoa passa a devorar a si mesma.

“E também não é possível ativar uma glândula. Se alguém muda seu ritmo de vida, passando a ter mais tranqüilidade no dia-a-dia, certamente vai influenciar seu sistema neuroendócrino a ponto de fazê-lo funcionar melhor. Mas isso está longe de ser uma mudança na função glandular”, completa.

Quanto às influências do Sol sobre o organismo, a médica explica que ele ativa a produção de vitamina D através da pele e ajuda a desencadear a puberdade, mas não tem qualquer atuação sobre a nutrição. “Acho que o único lado positivo de toda essa divulgação na mídia é conscientizar as pessoas sobre os males do consumo excessivo. O resto deve ser visto com muita cautela”, alerta.

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Jornal do Commercio
Recife - 15.07.2001
Domingo