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No Pé da Conversa
Lenivaldo Aragão

No tempo da praia

Ainda na merecedíssima euforia da torcida do Náutico pela conquista do ansiado título de campeão pernambucano, após uma espera de 11 anos, vamos contar dois casos registrados na fatídica – para a timbuzada – noite de 22 de julho de 1993, quando o Náutico tinha o título de campeão na mão e deixou-o escapar.

Decisão no Arruda, o Náutico tinha a vantagem do empate diante do Santa Cruz. Marcou de frente, por intermédio de Paulo Leme, e ia espremendo cada vez mais o adversário. A torcida já comemorava a conquista. Dava gosto ver aquela massa alvirrubra gritando é campeão, é campeão.

Um dos milhares de torcedores timbus presentes no Arruda, o oficial-de-justiça Wílson Macieira, conhecido nas hostes alvirrubras como Parceirinho – vem a ser irmão do conselheiro Constantino Macieira Júnior –, não quis nem ver mais os momentos finais do jogo. Deixou o estádio e saiu para a sede dos Aflitos, na base do cooper, pois queria ser um dos primeiros a chegar lá, para a grande comemoração.

Entra em rua, cruza sinal, avança, dobra aqui, sai acolá, vai chegando nas imediações da sede alvirrubra, já antegozando o momento de juntar-se à legião de torcedores que certamente acorreria até lá para fazer a grande festa.

Ao chegar mais perto estranhou o fato de a sede, que pelos seus cálculos já deveria estar mergulhada num intenso carnaval, encontrar-se dominada por um estranho silêncio, não compatível com a situação de um time que estava tornando-se campeão estadual. “Aqui tem coisa”, deve ter pensado com seus botões. Ao chegar, procurou saber o que estava acontecendo. O vigia lhe informou que o Santa Cruz havia virado o jogo em sete minutos e que o Campeonato seria decidido numa prorrogação de 30 minutos. Por alguns instantes se interrogou para sentir se estava estava mesmo acordado. Ao constatar a triste realidade, não teve alternativa, a não ser ficar acompanhando a transmissão pelo radinho do vigia. O resto já se sabe. E haja frustração.

Naquela mesma noite, o professor Eduardo Neves, Dudu, nem esperou para tomar a carraspana da vitória. Ao aproximar-se o fim do jogo, que ele acompanhava em casa, pelo rádio, foi dominado pelo sono. Não fez o mínimo esforço para resistir. Faltava pouco tempo para o término da partida e ele, feliz, foi dormir como campeão.

No dia seguinte, ao dirigir-se a uma banca perto de sua casa para conferir os jornais e gozar os torcedores do Santa, não acreditou no que viu. Chegou a pensar que a turma estava zonando com a sua cara, mostrando-lhe aquela manchete dando o Santa como campeão. Não era, para a infelicidade de Dudu.

Bom, depois de tanto tempo, Parceirinho e Dudu estão de alma lavada.

Dupla caipira no futebol pernambucano

“E com vocês, a dupla Kiko e Kuki, nova sensação do futebol pernambucano” – essa apresentação poderia ser feita por Leo Medrado, Haroldo Costa, Natan Oliveira ou Adílson Couto, num programa de auditório. Como o futebol necessita de caras novas para motivar o torcedor, sem desprezar a experiência de gente competente, mesmo veterana, como Valdo, a parceria até que poderia ser formada. Só que Kiko (cacófato à parte) veio para o Sport, e Kuki é do Náutico. Se depender dos alvirrubros, o co-artilheiro do Campeonato, 14 gols, continuará nos Aflitos.Mas, como o vil (?) metal funciona forte no futebol, é bom a timbuzada ficar de orelha em pé.

Varejo 1

O vermelhidão, misturado ao branco, está espalhado por todo o Estado. É festa até não querer mais. Lembro-me que quando o Santa Cruz foi supercampeão de 1957 (seu último título tinha sido em 47), foram uns dois meses de festa, pois a cada fim de semana os jogadores recebiam uma homenagem. A torcida do Náutico tem todos os motivos, depois de 11 anos de ansiedade, para festejar, por uma série de razões. Uma delas: como aconteceu em 55, quando o Sport levou a taça no ano de seu cinqüentenário, seria uma frustração para os alvirrubros, no centenário do Náutico deixarem o título ir nadar em outras águas. Além disso, o Hexa ficou imaculado.

Varejo 2

Haja gozação. Na empolgação do título, o alvirrubro Geraldo, cambista daqui da calçada da Rua do Imperador, abraçava outro torcedor do Náutico, quando um rubro-negro, jogador de dominó também da calçada, provocou: “Vão logo saber quanto é uma passagem pra Sergipe, pois vocês estão na Segunda Divisão.” O amigo de Geraldo abriu a palma da mão. Nada quanto a preço de passagem, mas uma alusão ao 5x0 que o Sport levou do São Paulo, como ele, da Primeira Divisão. ***** De Londres, o jornalista Álvaro Filho responde a um rubro-negro daqui da Casa, que lhe mandou aquele coro: “Hexa é teu avô”. Diz Álvaro: “Meu avô foi hexa, mas talvez os teus netinhos nunca sejam.”

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Jornal do Commercio
Recife - 15.07.2001
Domingo