Passados os seis primeiros meses da experiência administrativa do PT na Prefeitura do Recife, o ex-ministro da Fazenda e do Meio Ambiente Gustavo Krause – um dos teóricos do PFL – reviu as proposições que lançou, em documento à cúpula do partido no Estado, no início do ano, quando os pefelistas saíam da derrota eleitoral para o prefeito João Paulo (PT). Na carta, Krause incentivava sua legenda a montar um “Gabinete das Sombras” (shadow gabinet), um modelo adotado na Inglaterra, no qual a oposição convoca um grupo de especialistas em diversas áreas para acompanhar setores da administração, com o objetivo de tornar mais eficiente a fiscalização do Governo. Além de dar um puxão de orelha nos oposicionistas da Câmara Municipal do Recife, Krause – que há seis anos não exerce mandato eletivo – fala, nesta entrevista a Luciene Soares, sobre o papel dos "mensageiros" da oposição, da Aliança PMDB/PFL/PSDB. Ele não perde a oportunidade de dirigir farpas à Prefeitura e comenta os seus planos para 2002.
JORNAL DO COMMERCIO - A oposição conseguiu satisfazer suas expectativas?
GUSTAVO KRAUSE - Ela está muito aquém das minhas expectativas. É uma oposição fraca porque não é consistente e os efeitos da sua fragmentação estão visíveis. A perda de tempo em discussões menores e a falta de proposições são fatores que vêm atrapalhando bastante.
JC - O senhor insiste no Gabinete das Sombras (Shadow Gabinet) como solução?
Krause - Eu nunca disse isso. A Imprensa que etiquetou dessa forma. Eu não sou maluco, sei que o shadow gabinet é um instrumento próprio de países parlamentaristas e de grande tradição democrática. No Gabinete das Sombras haveria uma nomeação efetiva, dentro do partido, de pessoas para serem o contraponto do secretário a ou b. O que eu proponho é uma oposição orgânica, sem essa definição de papéis, mas que invista num acompanhamento das ações da Prefeitura, que faça uma avaliação crítica, que tenha uma estratégia oposicionista e o mais importante: determine suas suas vozes.
JC - E qual seria o papel dessas vozes?
Krause - Essencialmente, falar em nome do bloco, mas só no parlamento. O que eu noto é a existência de muitos mensageiros, muitas vozes, mas todas são desencontradas. E esse conjunto de erros acaba barrando o bom funcionamento da bancada. Cada um está fazendo oposição isoladamente.
JC - O ex-prefeito Roberto Magalhães (PFL) e o vice-governador Mendonça Filho (PFL) poderiam ser tachados como mensageiros?
Krause - Sim. achei legítima a atitude de Magalhães de querer levar o líder institucional do partido (Mendonça Filho) para tentar reaproximar o grupo. É uma contribuição importante. Eles, como quaisquer outras lideranças pefelistas, mesmo que não estejam no legislativo da cidade, são mensageiros. Mas é preciso deixar claro que oposição não pode ser exercida por Roberto Magalhães, Mendonça Filho, Gustavo Krause ou fulano de tal, isoladamente. Essa é uma tarefa que cabe ao partido, enquanto organização e instituição.
JC - Os partidos de centro-esquerda ou alguma legenda específica se aproxima desse ideal de oposição, proposto pelo senhor?
Krause - Não que eles façam isso melhor do que ninguém, mas o Partido dos Trabalhadores sempre se apresenta como alternativa de poder e passa por esse processo de adptação e organização visando, sempre, a ascensão política. Mas o curioso é que eles sempre se preparam para exercer a oposição porque eles sabem que essa função também é poder.
JC - Falta essa consciência em seus correligionários?
Krause - O partido ao ser apeado do poder, como foi o caso do PFL, tem que se organizar como bloco de oposição. Infelizmente, falta esse senso em muitos companheiros, não só do partido. Todos os atuais oposicionistas devem se empenhar em aprimorar a fiscalização ao Governo João Paulo.
JC - Há alguns meses o senhor disse que toda aliança deveria ser testada como oposição. Ainda acredita nisso?
Krause - Sim. Eu sugeri isso (oposição orgânica) a meu partido, mas não significa dizer que os demais partidos da Aliança não se unam nessa organização, até porque a oposição deve ser exercida pelos partidos que foram derrotados. Se os vereadores que estão aí acatarem minhas sugestões, ótimo. Eu sou um mero proponente.
JC - O que vem acontecendo com o legislativo da capital é um indício dos desencontros dentro da Aliança como um todo?
Krause - A Aliança é muito forte, muito unida, apesar dos rumores que sempre espalharam sobre o seu fim. Isso pode até acontecer, mas não em 2002. Essa ruptura poderá até se concretizar, mas num futuro distante.
JC - Como oposicionista, o senhor poderia avaliar a condução da Prefeitura?
Krause - É muito cedo para avaliar, mas já estão aparecendo sintomas de que o Governo não tem identidade. Falo isso porque a atual administração não vem demonstrando ser obreira ou revolucionária, principalmente do ponto de vista das políticas sociais. Não vejo sinais de mudança nas prioridades. O que vejo é um processo decisório complicado que sempre força o prefeito a ir e voltar nas suas atitudes.
JC - Então não falta munição para a bancada adversária ao prefeito?
Krause - Exatamente. Mas não sou eu quem vai usar essa munição contra a Prefeitura.
JC - E essa apatia da oposição poderá refletir de que forma em 2002?
Krause - Não dá para fazer previsões, mas essa será uma eleição singular, marcada pela elevação do debate político. Agora, a atenção dos eleitores estará voltada para o lado propositivo dos candidatos. A complexidade das próximas eleições vai fazer com que o eleitor exija mais competência.
JC - E as suas pretensões políticas para 2002?
Krause - Estou bem onde estou: como profissional liberal. Não tenho mais vontade de voltar para cargos executivos. Eu não tenho mais paciência para lidar com burocracia. Mas eu ainda sinto atração pelo Legislativo. Ainda é muito cedo para eu me adiantar, mas não descarto uma candidatura a deputado federal.