Dentro de um ano deve está pronto o primeiro traçado turístico sobre a presença histórica dos cristãos-novos e judeus no Estado. Os trabalhos são coordenados pela antropóloga e historiadora Tânia Kaufman, da UFPE
por ARIADNE QUINTELLA
A historiadora Tânia Kaufman vai ministrar um curso de capacitação de guia turístico em cultura judaica em Pernambuco, como parte do Projeto Cultural Integrado, patrocinado pela Philips do Brasil. Organizado pelo Escritório de Revitalização do Bairro do Recife, o curso terá início no dia 28 de agosto. Também a agência de viagens Luck encomendou-lhe um roteiro para o primeiro grupo de turistas judeus norte-americanos que está sendo aguardado no Estado.
A historiadora vem fazendo pesquisa, juntamente com seus alunos da Universidade Federal de Pernambuco(UFPE), sobre os passos que marcaram a presença judaica em Pernambuco. O resultado, além de constituir um roteiro turístico específico, irá compor um banco de dados. “Esse levantamento sobre os diferentes momentos da vida dos cristãos-novos e judeus sefarditas em Pernambuco só deverá estar concluído dentro de um ano”, avalia Kaufman. Mapas e folders também devem integrar o material.
“No Bairro do Recife estão sendo mapeados os ambientes residencial e de negócios, além das condições de instalação de uma sinagoga, que foi a primeira das Américas, num período tão curto de liberdade religiosa, num contexto, de certa forma, de resistência”, explica Tania Kaufman.
PINA JUDAICO - A pesquisadora cita como parte do roteiro para os turistas judeus que aqui chegarem, o cemitério dos judeus que existiu nos Coelhos, localizado pelo arquiteto José Luiz da Mota Menezes, que fez estudos a respeito.
Outro ponto histórico é a parte do antigo portal do Pina, a chamada Ilha Cheira-Dinheiro. Esse nome tem uma razão: o antigo proprietário, nos fins do século 17, era sovina e bastante avarento. Há referências sobre ele e seus hábitos no testamento de André Vidal de Negreiros, de 1678, como um irmão do capitão André Gomes Pereira e proprietário de terras no local da antiga ilha.
O arrabalde praiano, segundo o historiador Flávio Guerra, que hoje conhecemos com o nome de Pina, compreende historicamente o conjunto das antigas ilhas da Barreta, do Cheira-Dinheiro, do Nogueira e dos Coqueiros e do Pontal.
Complementando um pouco mais o roteiro do turismo cultural judaico, ela inclui ainda a Casa da Guarda dos Judeus em Olinda. Hoje, no local, está a Igrejinha dos Milagres, um reduto de pedras que, de acordo com o historiador Pereira da Costa, ficava no meio do istmo, ao norte, e nas imediações do Mosteiro de São Bento.
PRISÃO RELIGIOSA - Continuando, ela cita o Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco, na Rua 13 de Maio, em Olinda, cujo prédio foi projetado para abrigar o Aljube da Diocese, palavra de origem árabe que significa cárcere de foro eclesiástico, para homens e mulheres acusados de delitos contra a religião católica. Dentre eles, estavam os judeus. O monumento foi tombado em 1966.
O município de Camaragibe, segundo Tânia Kaufman, era conhecido como Terra das Sinagogas, porque nos engenhos era comum o funcionamento dos templos. Essa parte foi pesquisada pelo historiador José Alexandre Ribemboim e transformada no livro Senhores de Engenho Judeus em Pernambuco Colonial. A obra vai servir de guia para a extensão do roteiro turístico pela Zona da Mata.
COMÉRCIO – O Bairro da Boa Vista – lembra a antropóloga, com mestrado e doutorado em História – foi o centro vital da comunidade judaica no início do século passado, quando foi acentuada a vinda de imigrantes judeus para o Recife. Nesse bairro, eles residiam, tinham seus negócios nas ruas do Aragão e Imperatriz, na Praça Maciel Pinheiro, irradiando-se por todo o bairro, onde funcionou um centro israelita e a sinagoga da Rua Martins Junior.
A arquiteta Rosa Ludemir, que está escrevendo sua tese de mestrado sobre a presença judaica em Pernambuco com ênfase no aspecto físico (construções, tipos de habitação e de comércio) diz que no bairro, ainda hoje, é marcante a presença de comerciantes judeus. “Outro dia, gritei na calçada chamando minha filha Raquel e logo apareceram três comerciantes à frente de suas lojas na Rua do Aragão”, comentou.