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Os milagres da vida
por ANTONIO WANDERLEY DE SIQUEIRA*
Segundo Antônio Houaiss, milagre é coisa admirável pela sua grandeza ou perfeição. É efeito cuja causa escapa à razão humana.
A vida é uma constante sucessão de milagres. Inicia-se, num simples cruzar de olhares ou de correspondências entre desconhecidos, ignorando raça, cor ou condição social, idade e as vezes até, a distância. “Uma força arde diante de nós”, segundo o professor Mário Márcio. Aí, se efetivam os primeiros milagres.
Amor, casamento e relacionamento sexual engrossam uma torrente de paixão indômita e voraz que, indiferente a tudo, sem que se saiba por que, vai transpondo, não raro, as raias do inconseqüente. E não tarda que, movido pela força da natureza, um microscópico espermatozóide siga entre milhões ao encontro de um óvulo para gerar um ovo que, fecundado, cresce num pequeno útero, forçando-o a aumentar a sua dimensão de forma inimaginável, acompanhando as várias modificações no organismo impostas pela gravidez que se instala, para permitir que o feto se desenvolva alimentado por um caprichoso mecanismo que, mais adiante, dita de forma inteiramente independente e desconhecida, a hora precisa do parto. E a jovem mãe põe-se a imaginar qual o milagre vai haver para aquela criança com todo o seu tamanho e sua vitalidade, chegar para habitar o nosso mundo.
Num passe de mágica, ela chega, pega o peito, se amamenta e cresce. Ao sentir as tristezas da vida, aprende a chorar e a rir nas horas de satisfação. Diante da admiração de todos, anda, fala e, mais tarde, enfrenta os extensos e numerosos obstáculos impostos pela própria vida. Aprende a ler, a escrever e na escola vai galgando, ano a ano, seus lauréis, seus títulos, seus triunfos, juntos com o brilho da juventude.
As conquistas se sucedem e o mundo passa a viver a seus pés.Já é um adulto. E a seqüência de milagres continua. A seu lado, sem querer nem lembrar que cada vitória conquistada diante do tempo mais consubstancia a aproximação do fim e, por conseguinte, da separação definitiva, a força do destino condiciona todos a torcerem sempre por mais conquistas futuras. E a hora chega quando todos julgam estar, ainda, no meio do caminho. Sem dúvida, uma ingratidão involuntária. Ninguém sai satisfeito de uma boa festa.
Diante da constatação de tantos milagres envolvendo a nossa existência, resta-nos a alternativa de agradecer a Deus por participarmos desta coisa tão maravilhosa que é a vida. Mormente quando legada em sua plenitude, com saúde e com o direito ao uso de todos os sentidos. Com a razão e o sentimento para discernir que em quaisquer condições, não nos faltará motivo para identificar um substancial naco de felicidade em nossa existência. Basta que não se supervalorize um salto de sapato que se quebra num baile ou um pneu que se fura na rua em dia de chuva e não se esqueça do tanto de bom e maravilhoso que a vida nos lega.
Acredito, piamente, que o milagre de vencer na vida não consiste em amealhar dinheiro e exibir fortunas, mas em prover o espírito do verdadeiro sentimento de felicidade que nos é legado pelo destino.
Mário Covas, durante entrevista concedida no dia 30 de novembro do ano passado, antes de ser operado para extirpação de um tumor maligno no reto, assim respondeu a um reporter: “Como é que posso reclamar disso, se Deus me deu a vida? Quem ganha o principal não pode discutir o acessório”.
Vejam só, que belo exemplo de felicidade consciente.
*Dr. Antonio Wanderley de Siqueira é médico
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