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ENTREVISTA/Levir Culpi
“Temos muito tempo para acertar o time”

Ao contrário do bonachão e simpático Jair Pereira, o atual técnico do Sport chegou falando alto. Exigiu contratações à diretoria e as conseguiu. Militante da escola sulista de treinadores, Levir Culpi não se considera um disciplinador, mas é. Não deixa os jogadores darem entrevistas nos minutos que antecedem os treinos e exige responsabilidade dos atletas que comanda. Deu ‘carão’ nos massagistas quando viu copos de plástico sujando o gramado do campo de treinamento e não permitiu que fossem gravadas imagens das jogadas de bola parada. Debaixo da carcaça de homem de poucas palavras, porém, o paranaense Culpi é uma pessoa que gosta dos prazeres da vida. É habitué de bons restaurantes (possui dois, de comida mineira), admirador de cachaças e amante da boa música, que gosta de ouvir no último volume, para o desespero da esposa e das filhas.

Enquanto jogador, Levir foi zagueiro, tendo vindo parar no Santa Cruz em 74. Em Pernambuco passou quatro anos (tempo exato para formar-se em Educação Física pela antiga Fesp, hoje UPE). Como técnico, teve uma carreira meteórica. Começou no Juventude de Caxias e, poucos meses depois, foi para o Atlético Paranaense. Já passou por várias equipes do Sul e Sudeste brasileiros e até pelo Japão e Arábia Saudita. Destacou-se no Cruzeiro, quando foi vice-campeão nacional em 98. No fim do ano passado, foi cogitado para treinar a seleção brasileira, mas acabou preterido e sendo demitido até do São Paulo, time em que passou um ano de altos e baixos. No início da temporada foi procurado pelo Sport, nas não conseguiu chegar a um acordo financeiro com a diretoria do clube da Ilha do Retiro. Agora, mesmo tendo pegado o ‘bonde andando’, tem confiança na conquista do inédito hexacampeonato estadual. “Temos muito tempo para acertar o time”, avisa. Confira os principais trechos da entrevista concedida pelo técnico ao repórter Ivan Moraes Filho.

Jornal do Commercio – Por que os treinadores sulistas fazem tanto sucesso?

Levir CúlpiAcho que tem a ver com a descendência mesmo. Nós do Sul somos quase todos descendentes de europeus. Acho que isso ajuda, pela organização que temos. Não me considero um técnico disciplinador, um ditador de regras, mas não dá para trabalhar sem disciplina.

JC – O que o senhor acha do jogador que gosta de sair à noite e não se cuida?

LevirIsso tem a ver com a formação do caráter, que não se muda da noite para o dia. Não gosto de dar broncas em jogadores individualmente. Prefiro a conversa. Os jogadores admiram os treinadores que são honestos. E é assim que eu procuro ser. Quanto ao jogador sair muito na noite, eu acho uma coisa pessoal. Acho até que pode, mas não deve.

JC – Religião também deve ser uma coisa individual?

LevirFora do clube o camarada pode ser católico, evangélico, espírita, macumbeiro ou budista, mas não é interessante trazer a religião para dentro do campo.

JC – O senhor esteve cotado para comandar a seleção brasileira no ano passado. Acabou sendo preterido, mas ainda deseja chegar lá?

Levir É mais um sonho que uma meta. Como todo técnico, queria muito treinar a seleção do País e sei que um dia isso pode acontecer. Não tenho pressa. Não tenho lobby na imprensa, não tenho procurador e não tenho empresário. Por isso fiquei até impressionado quando meu nome foi cogitado no ano passado. Achei até cedo demais.

JC – Uma de suas declarações, dizendo que Romário estaria velho na próxima Copa, repercutiu bastante. O senhor acha que isso tem a ver com o fato de o senhor não ter sido chamado para a seleção?

LevirSoube por amigos ligados aos bastidores do futebol que aquele comentário teve um peso muito forte para que eu não fosse escolhido técnico da seleção. Mas não me arrependo. Minha resposta eu devo dar daqui a um ano. Acho Romário, hoje, o melhor atacante do mundo, mas acho que se está perdendo tempo com ele. O Brasil se classifica entre os quatro nas Eliminatórias com qualquer dupla de ataque. Eu era a favor de Romário na Olimpíada. Mas para a próxima Copa, eu continuo sem saber se ele vai chegar bem. Se chegar, acho que chega andando.

JC – Mas isso é por causa da idade? No Sport o senhor requisitou a contratação de três jogadores tão ou mais velhos que Romário (Zetti, Valdo e Gílson Batata)...

Levir Não tem negócio de idade. Tem produtividade. Faço uma projeção de produtividade. Acho que Romário não vai estar produzindo bem no ano da Copa.

JC E o Brasil? Ainda tem o melhor futebol do mundo?

LevirAcho que sim, mas está longe de ser o mais organizado. O ano passado foi um dos piores da história. Houve duas CPIs, fracassamos na Olimpíada, houve aquele episódio com Wanderley Luxemburgo... Isso sem falar no desastre que foi a Copa João Havelange. Isso tudo é fruto de uma atitude errada de muitos clubes, que se preocupam demais em fazer dinheiro e esquecem o que é realmente importante. Num mesmo ano, no São Paulo, foram vendidos sete jogadores, de um semestre para o outro.

JC – E este ano? O senhor acha que vai ser melhor?

LevirO calendário deste ano já está comprometido. Veja o Sport, por exemplo. Vamos jogar em três campeonatos ao mesmo tempo. Muitos jogos vão ser adiados e a gente vai acabar tendo problemas. E olha que não estamos disputando nenhuma competição internacional. Já é hora de se começar a pensar no ano que vem.

JC – O senhor concorda com a inclusão de equipes como o São Caetano na primeira divisão do Brasileiro?

Levir A organização do futebol aqui às vezes é como fim de novela. O sujeito não sabe o que fazer com o personagem, aí vai e mata. De repente, um ator é contratado e o autor tem que encontrar um jeito de colocá-lo no roteiro. O pessoal que faz o futebol aqui está colhendo o que plantou. Inventaram um campeonato que permitiu a um time da série B estadual chegar a disputar um título brasileiro. Agora tiveram que mantê-lo na elite.

JC – Qual foi seu título mais importante?

Levir Com o Cruzeiro, a Copa do Brasil de 96. O Palmeiras era favoritíssimo e levamos o título em pleno Parque Antártica. Dida (goleiro) fez milagre naquele dia. Também houve outras conquistas que me deixaram emocionado na época. Quando levei o Criciúma para a Libertadores e quando a Inter de Limeira foi campeã da Segundona, por exemplo.

JC – É verdade que o senhor é amante de música?

Levir Adoro todo tipo de música. Só gosto de escutar alto. Ora, é DVD...Tem que escutar alto, né? Aí sai todo mundo e eu fico sozinho. Sai mulher, filha, cachorro, ninguém agüenta...

JC – Mas o senhor normalmente viaja para trabalhar sem a família, não é?

LevirGeralmente fica todo mundo em Curitiba e eu viajo sozinho. Fico sempre na ponte-aérea, voltando para visitar sempre que posso. Para as minhas duas filhas, não é tanto choque porque elas cresceram se acostumando com isso. Também me dou muito bem com minha mulher. Acho que esta é uma maneira fantástica para se manter um bom casamento. A gente fica pouco tempo junto e não tem tempo de brigar (risos).

JC – No início do ano, o senhor passou um tempo na Europa, visitando centros de treinamento. O que mais chamou a atenção?

LevirObservei muitas coisas interessantes nos 25 dias em que viajei pela Inglaterra, França, Espanha e Itália. O CT do Arsenal, por exemplo. Eles têm um aquecedor para a grama. Como lá é frio, às vezes a grama congelava e eles tiveram que implantar aquilo. O Real Madrid tem gramados artificiais que são parecidíssimos com a grama normal.

JC – Fora a tecnologia nos equipamentos e nos gramados, o que mais o Brasil tem a aprender com a Europa?

LevirAcho que só temos que aprender a organização. Com a bola rolando, os professores ainda somos nós. Mas lá há umas coisas interessantes. O tempo do nosso treinamento, mesmo, é maior. Lá eles fazem menos tempo, sendo que é uma coisa mais compacta, mais pesada. O treino da manhã vai das 10 às 11h30, mas você não vê ninguém parado. É cem por cento o tempo inteiro. Isso é uma coisa que dá para trazer para cá, mas tem que ser aos poucos.

JC – O senhor cobra muito dos jogadores?

Levir O atleta não tem a obrigação de vencer. Tem a obrigação de ter garra e amor à camisa. E quando eu falo amor à camisa, falo num sentido figurado. É preciso que o atleta se una e tenha consciência de que o bem do clube é o bem dele. No Japão, se a empresa vai bem, todo mundo ganha bônus, aumenta o salário. Se a empresa está mal, o ordenado baixa.

JC – Esse contrato de produtividade daria certo no futebol?

LevirO futebol segue a lei da oferta e da procura. É como em qualquer área. Se você quer o melhor engenheiro para construir seu prédio, paga mais caro do que se contratar um recém-saído da universidade. Se tem um carro de Fórmula Um pode contratar Schumacher ou Boesel para pilotar. Não existe esse negócio de baratear as equipes. Os melhores times são normalmente os que investem mais. Obviamente, às vezes, times baratos conseguem render bem, mas eles são a exceção. Não são a regra.

JC – O senhor já afirmou que os atletas não fazem nada para melhorar as próprias condições de trabalho. Isso continua valendo?

LevirOs atletas aqui não fazem nada. A maioria joga com ordenado atrasado. No Brasil, há, no máximo cinco clubes que pagam em dia. Veja se eles param de jogar? Se fazem greve? No Uruguai eles param. Há muita gente jogando com o salário de três, quatro meses atrasado. Isso sem falar na rotina desgastante e no calendário maluco que têm que cumprir. E cumprem calados. Jogam muitas vezes porque têm medo de perder o emprego.

JC – Qual é a real importância do técnico no time?

LevirQuem deve ser enaltecido é o atleta. O técnico é uma parte da engrenagem e tem relativa importância. Ajuda a ganhar algumas partidas e é algumas vezes culpado pela derrota.

JC – Romário disse que a função do técnico é não atrapalhar...

LevirIsso é piada de mau- gosto.

JC – O senhor foi chamado para comandar o Sport no início do ano, mas a negociação não se concretizou. Prejudica o trabalho chegar no meio do campeonato?

Levir Eu gostaria de ter vindo em janeiro. Teria feito uma pré-temporada, montado o time-base e feito poucas alterações a partir dali. Na época, não chegamos a um acordo financeiro. Agora fizemos um pacote para estes quatro meses e ficou mais fácil. É certo que eu peguei o bonde andando, mas Pernambuco tem um dos campeonatos estaduais mais longos do Brasil e vamos usar isso a nosso favor. Temos muito tempo para deixar o time pronto.

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Jornal do Commercio
Recife - 16.04.2001
Segunda-feira