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CHOCOLATE
A guloseima dos momentos especiais

Descoberto pelas civilizações antigas, a guloseima nunca deixou de ser o principal ingrediente de momentos especiais, belos e, claro, românticos

por FABIANA MORAES

A receita é simples: leite, cacau e açúcar. O resultado é assombroso, discutível, delicioso, calórico, relaxante. Chocolate é isso: tem gente que o compara a um orgasmo, outros fazem o sinal da cruz quando se deparam com uma barra. E não adianta vir com guaraná pra mim. A moda agora é analisar a mais polêmica iguaria já saboreada na história. Aos fatos: ele faz bem ao coração. Mas engorda. Traz sensação de prazer. Mas pode aumentar a taxa de colesterol. Contradições à parte, um fato é inegável: é difícil encontrar alguém que resista a um bom pedaço de chocolate. Difícil, mas não impossível.

A estudante de fisioterapia Juliana Barradas, 21 anos, já perdeu as contas de quantas vezes teve que explicar o porquê de sua aversão ao doce. “É muito enjoado”, taxa ela, conhecida por muitos como ‘a menina que não gosta de chocolate’, numa clara alusão do preconceito que os não-amantes de chocolate sofrem. “Até os 15 anos, eu ganhava ovos de páscoa da minha família, que insistia em dizer que eu não gostava de comê-los simplesmente por que tinha medo de engordar. As pessoas não admitem que você rejeite chocolate”, desabafa Juliana, quase uma excluída social por suas preferências gastronômicas.

Do outro lado do ringue, temos a bibliotecária Zenilda Barros, 64, fã incondicional de qualquer coisa à base de cacau. Bem, qualquer coisa é exagero. “Bom mesmo? Chocolates belgas...”, derrete-se. Seu nível de sofisticação em relação à iguaria aprova o produto tupiniquim. “Prefiro não citar marcas, mas temos bons chocolates no Brasil”. Para Zenilda, uma barra do doce é um verdadeiro presente. Um prêmio. Uma ode às suas papilas gustativas. “Se vou fazer alguma coisa chata, compro uma barra. É um acordo comigo mesma”, comenta a bibliotecária, que, em dias especiais, prepara uma escandalosamente adiposa e deliciosa torta de suspiro recheada de... adivinhem.

Para a química industrial e doutora em Ciência dos Alimentos da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Zelita Faro, toda polêmica em torno do doce não possui nenhum fundamento. “Qualquer alimento faz mal se comido em excesso. Não adianta satanizar o chocolate”, acredita Zelita, que vê diversos benefícios ligados à iguaria. “Em primeiro lugar, o chocolate pode ser consumido por quase todo mundo, sem restrições. Seu valor energético também é importante”, continua. O cardiologista Antônio Carlos Toscano faz coro com Zelita no que se refere aos perigos dos excessos – incluindo aí, é claro, o chocolate. “Mas comê-lo durante a Páscoa não vai fazer mal nenhum”, esclarece, para o alívio de muita gente.

Falando em valor energético, é bom lembrar que o chocolate contém mais de 300 substâncias químicas diferentes e vários nutrientes necessários ao corpo. Calcula-se que uma barra média, pura, contenha cerca de três gramas de proteína, 15% da necessidade diária de riboflavina, 9% da necessidade diária de cálcio e 7% da necessidade diária de ferro.

UMA VIAGEM – Pesquisas a respeito do alimento dizem que o consumo do doce provoca euforia e bem-estar, que seriam causadas por causa de estimulantes como a cafeína e a teobromina. Também já foi dito que seus aminoácidos teriam a propriedade de alterar as células nervosas, assim como o THC presente na maconha. Quem não lembra, aliás, da famosa música Chocolate, cantada por Tim Maia, que, dizem, seria uma alusão à erva?

O chocolate também acelera os batimentos cardíacos e eleva a pressão sanguínea, agindo ainda sobre o sistema nervoso central. Talvez por isso, pessoas depressivas ou com tendência à depressão sintam-se tão satisfeitas ao consumir uma simples barra. Uma pesquisa realizada na Universidade de Toronto, no Canadá, afirma que o farelo do cacau reduz os níveis de LDL (conhecido como o ‘mau colesterol’) e eleva o HDL (o ‘colesterol bom’). Mas uma das melhores suspeitas científicas sobre o mítico alimento é aquela que tenta explicar sua relação com as pessoas apaixonadas. Os médicos Donald Klein e Michael Liebowitz, do Instituto Psiquiátrico Estadual de Nova Iorque, descobriram que o chocolate estimula a produção da feniletilamina, substância associada ao cérebro de quem está apaixonado. A dupla não poderia ser mais perfeita. Só resta saber o que acontece com os níveis de feniletilamina de quem já é apaixonado por chocolate.

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Jornal do Commercio
Recife - 15.04.2001
Domingo