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CHOCOLATE II
A saga de um tesouro que enlouqueceu os europeus

Guardado a sete chaves pelos espanhóis, os responsáveis pela disseminação do chocolate no resto do mundo, o alimento era visto como mágico por povos como os maias e astecas, que o utilizavam em seus rituais religiosos

por LUIZA BARROS

Chocólatras espalhados pelo mundo, rendei todas as homenagens aos maias, olmecas, civilização que ocupava uma área no golfo do México, e astecas. Afinal, há cerca de três mil anos, foram eles os responsáveis pela descoberta do grande tesouro: a semente da planta, teobroma cacao, a fonte original do chocolate. Depois da descoberta, naturalmente vieram o plantio e o cultivo e, como não podia deixar de ser, a travessia dos mares. Começava, assim uma verdadeira saga – o alimento seria transformado em moeda, usado para louvar os deuses e visto como fonte de uma infinidade de polêmicas, que, apesar dos ‘temperos’ diferentes, sobrevivem até hoje.

Além de plantadores, os maias foram os criadores de uma bebida fermentada, bastante amarga, feita das sementes do cacau. O líquido marrom-escuro tinha um efeito espumante – conseguido no derramamento de um recipiente para outro –, além de ser condimentado com pimenta, o chili quente. Em alguns livros da civilização, há desenhos de deuses executando rituais religiosos, nos quais os frutos de cacau aparecem com freqüência.

Para os astecas, o chocolate tinha usos variados – levava à sabedoria espiritual, fornecia energia e ativava a potência sexual. Tanto que era a bebida preferida em cerimônias de casamento. Conta-se, ainda, que o imperador Montezuma consumia cerca de cinqüenta garrafas de chocolate por dia, além de fortificar-se com uma xícara extra antes de entrar em seu harém.

RITOS E CERIMÔNIAS – Os grandes ‘pais’ do chocolate atribuíam a ele um valor divino. Os maias, por exemplo, faziam rituais para homenagear os deuses com o sacrifício de um pobre cachorro, cuja principal infelicidade era ter o pêlo da cor do cacau. Uma outra prática, também bastante intrigante, exigia que os plantadores permanecessem em celibato por treze noites. Na décima quarta, quando podiam finalmente voltar a dormir com suas esposas, as sementes eram plantadas.

Já os astecas usavam o chocolate para fabricar uma tinta para o rosto, com a qual se enfeitavam em cerimônias religiosas. E até mesmo os primeiros agricultores espanhóis acreditavam que os ritos secretos eram necessários para uma colheita de sucesso, e faziam cerimônias próprias de plantação.

CARAVELAS – A descoberta inicial do chocolate deve ser atribuída a Cristóvão Colombo que, em sua última viagem ao Caribe, em 1502, chegou a ilha de Guanaja, longe da costa de Honduras. Lá, foi recebido pelos astecas, que lhe ofereceram uma sacola, repleta de algo semelhante a amêndoas graúdas, em troca de mercadoria. Explicaram-lhe que uma bebida muito especial, o tchocolatl (ou chocolatl), poderia ser feito com as sementes. Colombo e sua tripulação, no entanto, acharam a mistura escura muito amarga e desagradável, mas acabaram levando algumas sementes de cacau para a Espanha, por pura curiosidade.

Dezessete anos depois, quando outro espanhol, Hernán Cortês, chegou no Novo Mundo, a reação foi outra. Ao ser apresentado a semente de cacau, Cortês logo percebeu seu valor econômico. Um contemporâneo do desbravador de mares relatou que um escravo poderia ser comprado por cem sementes de cacau, os serviços de uma prostituta por dez e um coelho por quatro.

O jesuíta Pedro Martyre de Angleria chamou as sementes de “amêndoas monetária” e as descreveu como “dinheiro abençoado, que livra seus possuidores da avareza, já que ele não pode se armazenado ou escondido”.

Em 1580, a primeira fábrica de processamento de chocolate foi inaugurada na Espanha. Dizem que a princesa espanhola Maria Teresa, que se casou com Luís XIV em 1600 chegou a declarar, certa vez: "O chocolate e o rei são minhas única paixões" (observe a ordem).

Aos poucos, a popularidade do doce foi se espalhando, gradualmente, para os outros países europeus. Após meados do século 17, o alimento já tinha despontando nas principais cidades da Europa. Daí em diante, o restante do mundo se curvaria às delícias do chocolate.

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Jornal do Commercio
Recife - 15.04.2001
Domingo