Associado à fertilidade pelos antigos, a conotação erótica do doce chega com força ao século 21
por BRUNO ALBERTIM
Não foi por acaso que os astescas relacionavam o chocolate à sua deusa da fertilidade, Xochiquetzal. Conhecido como fruto dos deuses na América, o chocolate conseguiu atravesar sua conotação erótica pelo Atlântico. Levado por Colombo à Europa, a iguaria logo ganhou fama de poderoso afrodisíaco. As mulheres espanholas não ousavam comê-lo em público. As barras eram consumidas sob a condição do sigilo sensual. Hoje, azeitado pela publicidade, o chocolate permanece como um bom catalizador das relações sexuais.
É justamente o poder de liberar endorfinas, ‘narcóticos’ naturais do organismo, que fazem do chocolate um bom estimulante para a cama. “Com o relaxamento do corpo e da mente, as pessoas ficam mais receptivas ao toque, ao prazer. Sem falar que o sexo envolve vários sentidos, entre eles o paladar. E o chocolate vai estimulá-lo”, aponta a sexóloga Silvana Melo, delegada regional da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana. “Os casais, de uma forma geral, podem estabelecer jogos sensuais partilhando coisas prazerosas”, diz a especialista.
A educação ocidental acabou conferindo ao chocolate o papel de importante eliminador de pudores. “Desde criança, as pessoas associam o chocolate ao prazer. A mãe costuma premiar crianças com bombons, que também servem de consolo quando elas estão tristes. Ao comê-lo, as pessoas, num certo sentido, evocam a criança interior, que vai aumentar a espontaneidade da relação”, associa a sexóloga.
Na mesma Espanha de Colombo, o chocolate era um dos principais ingredientes de uma famosa bebida afrodisíaca, a cantárida, cuja receita também incluía insetos. O licor do prazer já aparecia nos contos do Marquês de Sade, o francês que acabou condenado a um manicômio pela carga erótica de sua literatura. Um trecho exemplar: "Na sobremesa, ele colocou tabletes de chocolate tão bons que um número de pessoas os devorou ... mas ele as havia misturado em um pouco de cantárida ... aqueles que comeram as pastilhas começaram a queimar com um ardor lascivo ... Até a mais respeitável das mulheres era incapaz de resistir ao furor uterino que agitava dentro dela”.
A secular iguaria continua a compor o cenário dos romances, reais, contemporâneos. A médica Paula Santos, 22, conta que uma vez usou os bombons para seqüestrar o namorado. “O motorista da minha tia nos levou a uma praia. E, nas pedras do lugar, forrei um edredom e começamos a colocar chocolates um na boca do outro. Logo após o amor, comemos mais chocolates e nos jogamos no mar. Foi inesquecível.”