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Sexo@Cidade
Flávia de Gusmão

Você não gosta, mas seu filho gosta

1 Sogra, uma força da natureza

Mulheres assumem um comportamento estranho quando viram sogras. Porque isso acontece é quase impossível de dizer. Faz parte da lista dos mistérios insondáveis, ao lado do misterioso prazer que os homens encontram em coçar o saco. Brincar com as bolas deve ser muito divertido, uma vez que todos fazem. Freud secou a garganta falando da inveja que as mulheres têm do pênis. Sigmund que me perdoe, mas creio que ele errou por alguns centímetros. As garotas têm inveja é dos testículos. Todas elas nutrem uma mórbida curiosidade de saber como seria ter algo que fica lá, inerte, fora do próprio corpo (o pênis ao menos é uma curiosa engenhoca de armar e desarmar). Pensando bem, fora a função biológica, não há mesmo muito o que fazer com o saco a não ser coçá-lo. Voltemos a falar nos seres em que as mulheres se transformam depois que geram filhos. Prestem bem atenção, filhas não mudam o comportamento feminino. Filhos sim. Eles atuam como uma força gravitacional, que desvia o comportamento daquela que um dia já pertenceu à mesma categoria que todas as outras mulheres do mundo. Uma vez que uma mulher torna-se mãe de um homem (e futuramente sogra de uma mulher) ela deixa-se contaminar por pensamentos que, até então, nunca tinham cruzado a sua cabeça. Querem ver? Para os homens, normalmente, existem dois tipos de mulheres (Há exceções, várias delas). São elas: as vagabundas e as santas. Como ninguém de sã consciência vai classificar sua mãe na primeira categoria, automaticamente, sobra para ela a segunda. Também estão sob esse rótulo a mãe dos filhos dele (desde que o casal não tenha atingido a fase da pensão alimentícia. Aí a mulher deixa de ser santa e passa a ser ‘aquela-vagabunda-que-quer-o-meu-dinheiro’). Quanto menos rótulos disponíveis existem, mais fácil fica a tarefa de classificar a mulher – uma espécie que normalmente foge à compreensão masculina, e vice-versa. Assim, procura-se limitar o amplo espectro feminino à : mal-comida/bem-comida, gostosa/baranga, disponível/sapatão. Sempre assim, na base do maniqueísmo. Agradar a sogra, ganhar sua confiança, é quase sempre uma tourada que pode acabar bem ou se arrastar por toda a vida. Conhece-se, na mesma proporção, histórias edificantes de sogras que se tornaram uma segunda mãe e de sogras que levam as noras à loucura. O truque é reconhecer que, quando se domina um harém masculino (Ok, a palavra é inapropriada), formado por filhos e marido, dificilmente se quer entregar o controle para outra pessoa. O poder é delicioso. Historicamente, os homens sabem disso e o provam com muito mais freqüência. O poder do matriarcado é uma força da natureza, que lança seu efeito catastrófico sobre a terra, dependendo do temperamento específico da sogra que lhe coube. Há as mandonas, as choronas, as chantagistas, as manipuladoras e, claro, as absolutamente maravilhosas. Saber lidar com elas, é uma arte.

2 Raio, maremoto, furacão

Bom seria que todos pudessem fazer como a poeta Elisa Lucinda que, num poema, dirige-se à mãe de um suposto namorado para pedi-lo emprestado; “Deixa eu brincar com ele só um pouquinho...O que? Ele diz que para mim não existe pouquinho? É mentira. Eu devolvo. Não quero tê-lo, mesmo porque se tiver, posso perdê-lo”. Fique esperta. Poesia é só...poesia. Topar a líder de frente é a pior estratégia que alguém poderia escolher. Normalmente, a aproximação oficial acontecerá no território dela, de preferência num dia festivo, onde ela possa ter dezenas de testemunhas a quem recorrer depois para uma segunda opinião. É nesse dia que as conjunções astrais estarão perfeitas para que tudo dê errado.

3 Força na peruca, a batalha apenas começou

Se você for do tipo que acha que uma birita tem efeitos tranqüilizantes, pense melhor. Afaste-se do álcool ao menos nesta data magna. Ele vai estar rolando solto, como na maioria das festas familiares, mas resista à tentação de pedir só uma dose para descontrair. Os riscos são maiores do que as vantagens. Você não vai querer iniciar uma discussão acalorada com o tio Evair só porque ele tem mania de chamar todo mundo de ‘comunista’, como se isso fosse o maior palavrão já inventado. Sorria, sorria e sorria.

Prepare o estômago para ouvir sua sogra-brinde tecer loas à ex do seu bofe. Faz parte. Por mais que você saiba que a ex gentilmente enfeitou a testa do filho dela, resista à tentação de retrucar. Se o sorriso congelado já estiver dando cãibras no maxilar, use o canudinho para sorver um pouco da coca light no seu copo.

4 Menos é mais

Não há nada que você possa fazer nesse primeiro contato. Seja você mesma, mas, deixe-me colocar assim: que tal uma edição revista, resumida e editada de você mesma? Seu casaco de pelúcia rosa-choque comprado em Camden Town é tudo na vida, você sabe, seus amigos gays sabem – e todos babam de inveja –, mas a sogrinha vai achar que você parece um urso que passou pelo Recife Antigo na hora que o prefeito teve um desses acessos revitalizadores, tipo aquarela. Boa vontade, garota. Vai lá e lança mão do terninho preto comprado na Saks, off price de Miami, vá lá, mas, ainda assim, Saks. Santa Simone de Beauvoir que a perdoe, mas se o destino lhe deu um bofe gostoso, cheiroso, boa gente e bom de cama, vale o sacrifício de se chegar de mansinho e confessar a ela, humildemente, que você é um fracasso na cozinha. Isso vai criar uma aura de confiança tão grande na líder que você vai até poder sentir um vaporzinho quente emanar do ambiente. Aproveite para elogiar o cozido que ela faz, dizer que ela precisa lhe dar a receita e ensiná-la a fazer porque o júnior não fala em outra coisa.Se você vai conseguir dormir o sono dos justos é outro papo. Mas a sogra você ganha.

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Jornal do Commercio
Recife - 16.04.2001
Segunda-feira