LG_jc.gif (3670 bytes)

LIVRO
A loucura sem eiras nem beiras

Pernambucano Frederico Barbosa lança seu quarto livro, Louco no Oco sem Beiras, e se firma como um dos expoentes poetas brasileiros

por CAROL ALMEIDA

Ele acorda ainda dormindo, o fardo da vida iluminando o quarto, a consciência do inevitável o prendendo à cama. Há uma bruma de fadiga pairando no ar e ao mesmo tempo de descontrole entre as palavras quebradas, artigos jogados e o espaço vazio da página. Ele é o Louco no Oco sem Beiras, a “anatomia da depressão” de Frederico Barbosa. O mais novo livro de um dos expressivos poetas brasileiros que, por acaso, vem a ser pernambucano. Frederico, ou Fred como é chamado por muitos, nasceu no Recife em 1961, mas aos seis anos se mudou para São Paulo, onde vive até hoje tentando desconstruir a palavra numa ordenada desordem emocional. Sensação tipicamente paulistana.

Louco no Oco sem Beiras é o quarto volume de poesia do autor. Tendo como subtítulo a Anatomia da Depressão, o livro é um diário de mais um “dia diabólico” na vida do personagem título. É um ciclo que se abre com as primeiras sensações do dia, quando o autor acorda-se pesado com seu “desespertador” e passa então, a contragosto, a degustar as lembranças de sua infância, a experimentar a solidão do monólogo em sala de aula (ele é professor) e a finalmente encerrar o dia esperando que, no dia seguinte, o “desespertador” desperte sua dor e novamente o acorde.

Trata-se de um poema só, fragmentado, assim como aparentemente são fragmentadas as idéias de Frederico. A sonoridade perpassa sua construção que, muitas vezes, se assemelha na estrutura a Haroldo e Augusto de Campos, e no entanto se mostra mais humanamente exposta que qualquer outro trabalho do gênero. Seja colocando frases certas em verbos errados (ou vice-versa), ou criando neologismos geniais (tais como “insânia”, a “razão na insônia”), Frederico cria um quebra-cabeças: as peças são únicas, mas fazem parte de um plano maior, de algo que somente a poesia é capaz de ambientar, com toda aura da fantasia que cobre o sofrimento do homem.

Frederico Barbosa, no entanto, não faz a poesia do fantástico. Ele está bem distante do eufemismo ilusório dos românticos e a paisagem de seu horizonte não tem sequer a mesma cor dos poetas concretos, que faziam muitas vezes da poesia uma coleção mais de palavras-imagens que de palavras-sentidos. A fantasia do seu trabalho, particularmente em Louco no Oco sem Beiras, está na cruel realidade do cotidiano de várias pessoas que se sentem igualmente pesadas quando a luz do dia ilumina e contamina o quarto de verdades. Mas, enquanto os outros dormem tentando esquecer isso, Frederico acorda para escrever: verdades quebradas.

___________________________________


Jornal do Commercio
Recife - 16.10.2001
Terça-feira