Frederico Barbosa não é concretista, mas quando o assunto é literatura, sua reverência vai para os poetas brasileiros que deram luz à poesia concreta: Décio Pignatari, Haroldo e Augusto de Campos. Este último ele considera “o maior e mais importante poeta vivo de todo o mundo”. Nessa entrevista, o escritor fala do cenário literário brasileiro e de como a produção poética pode melhorar no Brasil.
JORNAL DO COMMERCIO – Com Louco no Oco sem Beiras você abre uma porta e mostra o próprio autor na “anatomia da depressão”. A poesia é uma forma de ‘invadir’ a si mesmo?
FREDERICO BARBOSA – Não. O que invade a gente é o caos, o terror, as mesquinharias do cotidiano. O mundo depressivo em que vivemos. Poesia é ordem, é a palavra exata, enxuta, precisa. Escrever poesia é uma forma de tentar organizar, dar ordem ao caos. Já que pouco podemos fazer para minimizar o caos do mundo, pelo menos podemos, com a poesia, tentar organizar o nosso horror interior. Alertar e protestar. A crise que descrevi em Louco no Oco sem Beiras é minha, mas é lógico que é uma crise generalizada. Quantos não sentem a depressão que descrevi no livro? Espero que a leitura possa ajudar muita gente a lutar, como faço, contra a depressão, o “oco sem beiras”.
JC – De que forma o concretismo traduz sua experiência de vida?
FB – Eu não sou um poeta concreto. Formei-me lendo com interesse os poemas e textos críticos dos concretistas paulistas. Devo-lhes muito. Mas tenho várias outras influências, e não me sinto mal por isso nem procuro destruir meus ídolos. São inúmeros, de Homero a Antônio Risério. Mas é claro que, sempre que falam em “influência”, pensam na minha relação com a poesia concreta. Vivo repetindo, embora desagrade a tantos, que a poesia concreta foi a única proposta estética jamais surgida no Brasil e único momento em que esse País esteve na vanguarda de qualquer arte no mundo. O Brasil é um país muito engraçado... fica vibrando quando um filmezinho de terceira concorre ao Oscar e esquece que temos, aqui, atuantes, três dos poetas mais importantes na história da literatura mundial: Décio Pignatari, Haroldo e Augusto de Campos. Digo mais: não tenho a menor dúvida de que Augusto de Campos é hoje o maior e mais importante poeta vivo de todo o mundo. Procuro fazer a minha poesia usando qualquer recurso disponível: sonoro, visual, concreto, o que seja... A grande lição da poesia concreta foi abrir as portas a todas as possibilidades criativas, sempre com rigor e técnica apurada.
JC – Sua poesia é ritmada, sonora. Qual a participação da música na sua vida?
FB – Assonâncias, dissonâncias, jogos gerais de som e sentido constituem a medula da poesia. Há poemas que não são musicáveis, porque são musicais, já dizia Fernando Pessoa. Sem música não há poesia. Há a prosa rala das bobagens. Mesmo a perfeita prosa, Machado, Clarice, Saramago, Rosa, é música a toda prova. A música que sempre me acompanha é o jazz. Muitas vezes fico com vontade de escrever um poema enquanto escuto Ella Fitzgerald, Billie Holiday, Duke Ellington, John Coltrane ou meu amigo Carlos Fernando.
JC – Você gosta de explicar seu trabalho?
FB – Tenho alguma dificuldade, mas acho importante tentar.
JC – No livro anterior, Contracorrente, você apresentava uma postura crítica em relação à linguagem poética e à produção de poesias no Brasil. De Contracorrente para Louco no Oco sem Beiras, algo mudou nesse cenário?
FB – Contracorrente abre-se com um “manifesto”, o poema Poesia e Porrada. Nele, digo que pouca coisa, na época (1999), me tocava na poesia brasileira. Não me referia à poesia contemporânea de escritores de outras gerações, como Pignatari, Haroldo e Augusto de Campos, Sebastião Uchoa Leite, Jomard Muniz de Britto, e outros poucos, que continuam produzindo poemas da mais alta qualidade. Falava da poesia da minha geração, dos que estão entre os 35 e os 50 anos. Nessa minha geração, o que predomina é o retrocesso, o receio de levar adiante as inovações radicais das gerações anteriores. Mas aconteceu, desde Contracorrente, algo que me animou muito. Descobri uma série de poetas, muitos inéditos, que estão fazendo um trabalho interessante: vigoroso e rigoroso, longe da mídia dominante, alguns sem perspectiva de publicação.
JC – Onde estão os poetas brasileiros?
FB – Estão espalhados por aí. Os mais vigorosos não estão, certamente, aqui em São Paulo, onde prevalece uma poesia intelectualóide desprovida de nervos ou medula. Mas há gente muito boa ainda inédita, ou pouco conhecida, aqui em São Paulo, no Rio, na Paraíba, em Minas, em Recife e até em Arcoverde.
JC – Onde está Frederico Barbosa na poesia brasileira?
FB – Em lugar algum. Sou um exilado. Por causa do golpe de 64, meus pais tiveram que se exilar do Recife e vieram para São Paulo. Cresci aqui, mas nunca me senti paulista. No Recife, também sou um estrangeiro. Sou um “pernambucano paulistano”, como escrevi em um poema. Na poesia, também me sinto um tanto só e deslocado. Nunca fiz parte de qualquer grupo. O que pretendo é unir a experimentação inventiva dos concretos ao ímpeto de denúncia dos ‘engajados’ e ao que há de inventivo dos ‘marginais’.
JC – Como professor de cursinho de literatura, dá para avaliar se os jovens estão estimulados a produzir?
FB – Não gosto de generalizar, mesmo porque sou professor de milhares de alunos. Nesse exato momento, tenho cerca de três mil alunos. Há gente de todo tipo. E eu tenho muito interesse por eles todos. Sei que não é culpa deles, e sim do ensino decrépito, mas existe um desinteresse generalizado pela leitura. Creio, no entanto, que muitos passam a se interessar pela literatura, tanto por ler quanto por escrever, quando sentem que a literatura está falando algo importante para o mundo deles. Durante os meus anos de silêncio, passava para alguns o Nada Feito Nada e o Rarefato. Poucos entendiam qualquer coisa. Resolvi que, a partir de então, escreveria para que eles entendessem, não para ser entendido por pessoas que tiveram todas as oportunidades de se educar, como eu. Assim, acho que posso, através da minha poesia, contribuir para despertar o interesse deles pela leitura e por escrever poesia.