A promoção da DVD Film Collection coloca, nas bancas de revistas, filmes a preços mais baixos do que aqueles encontrados no mercado
CAROL ALMEIDA
Sem pão, eles ofereciam o circo. Na linha de raciocínio do governo norte-americano, depois da Grande Depressão norte-americana em 1929, era mais do que nunca importante que a população se distraísse com o único mercado em ascenção na época: o de entretenimento. Foi assim que surgiu um dos heróis mais cultuados dos quadrinhos, aquele que deu luz aos visuais mais elaborados da ficção científica. Seu nome era Flash Gordon e seu criador chamava-se Alex Raymond, um dos maiores quadrinistas de todos os tempos. As histórias em quadrinhos de Flash Gordon eram visionárias, tratavam de tecnologias avançadas e civilizações distantes. Ingredientes apimentados para uma adaptação cinematográfica de grande porte, algo que envolveria recursos de efeitos especiais somente alcançados décadas depois do nascimento do herói, nos anos 80, quando surgiram a triologia de Guerra nas Estrelas, Blade Runner e, claro, Flash Gordon, o filme.
Agora, esse blockbuster do cinema chega à banca mais próxima de sua casa em forma de DVD. A idéia é da DVD Film Collection, promoção que irá colocar nas bancas de revistas filmes a preços bem mais baixos do que aqueles encontrados no mercado. Flash Gordon, por exemplo, está à venda por R$ 19,90. Além do filme, vem no mesmo pacote o encarte de uma revista com a história dos personagens e os bastidores da produção. A edição impressa serve, aliás, para suprir a falta de opções no menu do DVD do filme, cuja ausência de informações extras decepciona.
Nada disso, porém, pode ir de encontro ao impacto que o filme proporciona, primeiro por ser a adaptação oficial da história em quadrinhos de ficção científica mais popular dos anos 30 e 40, e segundo pela celeuma que se criou na época de seu lançamento. Os atores que emprestaram seus rostos a alguns dos personagens da série eram estrelas bastante comentadas na época: Max von Sydon (Imperador Ming), Timothy Dalton (Príncipe Barin) e Ornella Muti (Princesa Aura) são alguns deles. A trilha sonora é tão somente da banda inglesa Queen, que compôs especialmente para o filme sua música tema: Flash.
Como foi concebido para apenas uma produção, sem seqüências, o filme tem um ritmo acelerado de acontecimentos. As origens do herói tiveram que ser modificadas para caber na proposta do diretor de mostrar pouco mais de 14 horas de ação (tempo que Flash tem para salvar a Terra). Flash Gordon é nesse filme o nome de um famoso zagueiro de futebol americano que, por uma série de acasos, termina indo parar (numa seqüência um tanto alucinada) no planeta Mongo, dominado pelo imperador Ming. Ao seu lado estão, também por acaso, a jovem Dale Arden e o cientista Hans Zarkov. Juntos, os três tentarão combater o impulso destrutivo de Ming e seus subordinados.
Diante dos demais filmes citados acima (Guerra nas Estrelas e Blade Runner, produzidos pouco depois de Flash Gordon), o longa-metragem do aventureiro do espaço não é exatemente o que se pode chamar de um primor de produção do ponto de vista de efeitos requintados. Mas, numa época em que um dos recursos mais avançados no cinema ainda era o cromo (sobreposição de imagens sobre um fundo monocromático), não se podia cobrar muito. Mesmo assim, o filme impressionou pela magnitude da produção. Leia-se com isso, figurino e cenários.
As roupas usadas pela equipe do diretor britânico Mike Hodges usaram e abusaram do direito da purpurina. Os acessórios brilham, as cores são fortes e as roupas, de uma maneira geral, são estridentes. Apesar de não ser 100% fiel aos uniformes originais dos heróis e vilões, a indumentária se encaixa perfeitamente na proposta da adaptação da HQ, que é essencialmente colorida (embora fosse publicada durante muitos anos em tiras preto-e-branco) e cheia de personagens visualmente ricos em detalhes. Em seu resultado final, o filme se assemelha muito ao storyboard desenhado por Mentor Huebner, praticamente o diretor de arte de Flash Gordon. O excesso de criatividade, no entanto, deixa por vezes a imagem do filme parecida com o desfile de uma escola de samba do Rio de Janeiro. Porém, o Carnaval nesse caso pode ser agora assistido do camarote de seu home theater.