Projeto ousado reúne 14 bandas brasileiras, que adaptaram o famoso clássico de William Shakespeare, com um resultado surpreendente
RICARDO NOVELINO
Hamlet, um dos maiores clássicos da literatura mundial acaba de se transformar em peça obrigatória da coleção dos roqueiros brasileiros. Imortalizada no início do século 17 por William Shakespeare, a história trágica do príncipe da Dinamarca que, após encerrar os estudos, retorna para casa e descobre o pai morto, a mãe casada com o tio Cláudio, encontra o fantasma do pai e jura vingança, virou roteiro de uma ópera-rock concebida, produzida, escrita e executada pelas maiores e mais importantes bandas do heavy metal nacional. Após dois anos de trabalho pesado no projeto ousado, a Die Hard Records põe no mercado tupiniquim o CD Wililam Shakespaeare’s Hamlet, mostrando o lado metal do escritor inglês, deixando muito gringo com inveja.
A princípio, a idéia de transformar a clássica história de Hamlet em letra de heavy metal parecia até esdrúxula. Entretanto, os produtores Fausto Mucin e André Luiz Mesquita acreditaram num antigo sonho e decidiram apostar todas as fichas na empreitada. O primeiro passo foi convocar o poeta Adriano Villa, responsável pela adaptação dos quilômetros de texto de Shakespeare em 36 poemas especialmente produzidos para o disco. Durante esse trabalho, Villa assistiu inúmeras vezes aos filmes e leu exaustivamente trechos do livro em inglês antigo. Em seguida, os produtores chamaram as bandas emergentes do cenário hard nacional, escolhendo as melhores em diversos estilos. Os 14 grupos foram, então, estudar uma forma de adaptar a forma de tocar e cantar, seja heavy melódico, trash ou power ou progressivo, na temática das letras. Para levar isso tudo para uma bolachinha, foi chamado o guitarrista Sascha Paeth, da banda alemã Heavens Gate, um dos mais conceituados produtores de heavy metal do mundo na atualidade.
Músicas prontas, chegou o momento de entrar no estúdio Create, em São Paulo. O resultado é realmente surpreendente. O CD Shakespeare’s Hamlet tem 19 músicas, das quais quatro são vinhetas orquestradas e acompanhadas de pequenas narrações. Ao todo, são 74 minutos de som límpido, bem trabalhado e de interpretações dignas de aplauso. Os destaques da produção são o músico André Mattos, ex-vocalista do Angra e hoje no Shaman, também companheiro de Sascha no Projeto Virgo, responsável por uma das obras-primas do disco, o grand finale To Be. A canção retrata o discurso final do príncipe com uma das frases mais famosas da literatura. Afinal, quem nunca ouviu em algum lugar: “Ser ou Não Ser, eis a questão?”
Em To Be, a produção levou ao extremo a palavra ousadia. Convocou o maestro José Luiz Ribalta, que levou cellos, violinos e instrumentos de sopro para o estúdio. Nessa música, cada vocalista envolvido no projeto canta uma frase, cabendo a André Mattos fazer a ligação entre as demais vozes. O resultado é fantástico, empolgando com os coros e melodia apurada, numa canção pomposa e emocionante. As demais músicas são executadas como um roteiro de filme, começando da primeira aparição do fantasma a Hamlet e terminando com a morte da amada do príncipe, Ofélia.
Na abertura, o Delpht toca From Hades to Earth, com peso característico, melodia e instrumental afinadíssimo. Em seguida, aparece o Santarem em Sweet flavour of justification, mostrando uma canção com bom arranjo, melodiosa e com altas influências do rock progressivo e psicodélico, incluindo o tradicional hard rock. Nessa canção é revelado o discurso hipócrita que Cláudio, tio de Hamlet, faz ao tomar posse do trono e anunciar seu casamento com a rainha. O Hammer of the Gods traz Visions of the beyond com o sotaque que lembra o cenário norte-americano atual, o famoso new metal e não empolga tanto. O Krusader manda ver em The King’s return, um power metal, tocado com raça, incluindo passagens clássicas e coros, numa das melhores do CD.
A sétima música é a única parte ruim do projeto. O Nervochaos faz de The truth appears, um thrash com toques death metal e vocal gutural em que não é possível entender a letra ou qualquer passagem melódica. O Vers’Over: recupera o pique do início do disco e traz um heavy melódico com traços fortes e inconfundíveis de progressivo e instrumental variado, A letter to Ophelia, onde Hamlet passa a fingir uma loucura e fazendo de sua amada a primeira vítima, traz coros clássicos peso e melodia. O Sagga aposta no heavy metal melódico com efeitos de vozes em Dagger of words. Já o Imago Mortis brilha em Prayers in the wind. Os cariocas destilam seu som sombrio e obscuro, inserindo uma dose de loucura e desespero em uma canção mais que propícia e adequada à letra, que retrata o momento em que o rei Cláudio tenta se perdoar pelas faltas que cometeu, mas é impedido por sua própria consciência. Destaque absoluto para o instrumental e arranjos.
O Symbols é o responsável por uma das mais belas passagens da obra. Stormy nights mostra um heavy com classe, riffs inspirados e o vocal impecável de Edu Falaschy (Angra). O Hangar, do atual baterista do Angra, Aquiles Priester, apresenta Hidden by shadows, deixando de lado a complexidade, mas mantendo-se fiel às variações de ritmo, rapidez e bateria. Em Mandate for freedom, o Torture Squad conta como Cláudio, após dizer à Hamlet que vai enviá-lo para a Inglaterra, tenta convencer os ingleses a matá-lo, em troca de uma redução nos impostos, num metal mais sólido, tocado com instrumental afinado e soando thrash/death . O Fates Prophecy: mostra um heavy tradicional em Trap. Já o Eterna detona com Good by my dear Ophelia. O Tuatha de Dannan: com suas influências celtas, em The last words, a banda usa e abusa de passagens medievais, preparando para o grande finale com To Be.
Além da parte musical, irrepreensível, a arte do CD Shakespeare’s Hamlet também merece um destaque. na fase de preparação do disco, seis capas foram feitas. Entre elas, e escolha recaiu sobre um com a caveira, um dos símbolos do personagem Hamlet, misturados com uma sobra de um homem, num estilo metaleiro. No encarte é possível ler todas as letras, as vinhetas e demais poemas confeccionados para a obra. Também, estão no livro de 24 páginas as fotos das bandas e detalhes da produção. Realmente imperdível.