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ARTES PLÁSTICAS
Acervo de Marcantônio em risco

O ministro do TCU Marcos Vinícius Vilaça quer entregar a Pernambuco a coleção valiosa deixada pelo seu filho, mas o Estado não tem um local adequado para abrigá-la

Enquanto uma possível filial do Guggenheim é tratada ora como estrela ora como calo da prefeitura, o Governo do Estado tem que administrar um problema muito mais concreto. Há dois anos, quando o galerista e colecionador de arte Marcoantônio Vilaça morreu, seus pais – o ministro Marcos Vinícios Vilaça e Maria do Carmo – declararam a intenção de satisfazer um desejo do filho e doar a maior parte de sua coleção para o Estado de Pernambuco. Para isso, a família fez três exigências: que houvesse um local adequado e seguro para abrigar todas as obras; a exposição permanente de parte do acervo; e ações de arte-educação envolvendo as peças expostas.

O pedido, na verdade, é o mínimo que se poderia esperar de contrapartida para uma doação valiosa. Proprietário da Galeria Camargo Vilaça, de São Paulo, o jovem Marcoantônio montou sua coleção enquanto representou alguns dos mais importantes artistas nacionais. Para o curador da representação brasileira da Bienal de São Paulo, Agnaldo Farias, seria um desastre se o Estado de Pernambuco deixasse escapar a chance de ficar com esse acervo.

O diretor do Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo, Ivo Mesquita, explica que Marcoantônio conseguiu construir um patrimônio importante porque tinha um gosto refinado e uma percepção fora do comum para identificar jovens talentos. “A coleção é importantíssima e conta com o que há de mais representativo da produção plástica brasileira de meados dos anos 80 até o fim da década de 90”, destaca o diretor.

Na avaliação de Mesquita, a coleção que a família pretende doar a Pernambuco vale algo em torno de R$ 3 milhões a R$ 4 milhões. Mesmo que o Estado tivesse esse dinheiro para investir em cultura, não seria fácil encontrar obras da mesma qualidade disponíveis no mercado. “Seria muito importante para Pernambuco ficar com esse material. Mas se o Estado não puder, o MAM de São Paulo ficaria muito contente em receber as obras”, antecipa o diretor. Além do MAM-SP, o Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro já sinalizou o interesse de cuidar do acervo dos Vilaça.

Com o objetivo de satisfazer o desejo do filho, a família do colecionador segura as obras até receber uma resposta definitiva do Governo do Estado. “É difícil para nós cuidarmos de uma coleção desse nível, porque algumas peças são delicadas, não podem ficar encaixotadas e guardadas num depósito”, declara o ministro Marcos Vinícios Vilaça. Ele lembra que, logo após o falecimento do filho, procurou o Governo do Estado para explicitar seu desejo em fazer a doação. Desde então, recebeu apenas promessas verbais do secretário de Cultura de Pernambuco, Raul Henry, demonstrando seu interesse em receber o acervo.

“Eu me preocupo porque vejo muitas idéias, mas não há uma manifestação conclusiva para eu me tranqüilizar. Ainda não tenho uma documentação por escrito do Estado, que é um ente público e precisa oficializar suas posições”, explica o ministro.

Deixar as peças migrarem para outro lugar, definitivamente, não faz parte dos planos da família Vilaça. “Eu não quero nem pensar nisso, mas supondo que nenhuma instituição de Pernambuco possa receber as obras, ou não tenha condições, então, terei que doar a uma instituição de fora”, esclarece.

A única resposta que o Governo tem para ‘tranqüilizar’ a família Vilaça é que a coleção deve ocupar uma grande galeria no Complexo Cultural Tacaruna. Se tudo correr no tempo certo – projeto arquitetônico, licitação das obras e construção dos prédios –, o centro deve ser inaugurado daqui a dois anos e meio. “O projeto prevê uma grande sala para abrigar a coleção”, explica o diretor do complexo, Romero Pereira. Enquanto o Tacaruna não sai do papel, ele estuda a possibilidade de as obras serem transferidas para a reserva técnica do Museu do Estado. De qualquer forma, Pereira garante que está preparando uma carta oficial do Estado de Pernambuco destacando seu desejo em receber e abrigar as obras.

Isso significa que, mesmo se doada ao povo pernambucano, a coleção de arte contemporânea de Marcoantônio Vilaça ainda vai demorar muito para ganhar um local definitivo. “Este ano, contratamos uma consultoria para realizar o projeto do Centro Cultural Tacaruna. Quisemos fazer o estudo antes, para ter segurança que o projeto era viável e que não seria um desperdício investir o dinheiro do Estado na proposta”, resume Pereira. Ao que parece, tanto o Museu Guggenheim quanto a galeria para a exposição permanente das obras de Marcoantônio Vilaça são projetos que vão se arrastar por 2002. Aguardem as cenas dos próximos capítulos. (D.M.B.)

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Jornal do Commercio
Recife - 16.12.2001
Domingo