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José Teles Flamígio e o espírito das leis
É batata. Basta um mês sem falar em Flamígio, o sarará gente fina, ma non troppo, que nos fia o precioso líquido na combalida praia de Boa Viagem, pra me chegar uma tuia de e-mails de leitores reclamando a volta do sacripanta. A voz do povo, dizem, é a voz de Deus. Isso é uma regra, e, como toda regra, tem exceção. A exceção à regra deve ser essa exigência descabida por Flamígio.
Tive com o malfazejo na praia, domingo passado. Conversamos, entre uma e outra braminha da antarctica (eu) e uns dez quartinhos de pitucilina (ele). O sarará, veja só a senhora, deu uma de conselheiro. Alertou-me pra eu não dar vacilo neste espaço debochando dos politicamente corretos. Eles, vaticinou, vão acabar metendo os direitos humanos pra cima de mim. Nesse negócio de direitos Flamígio é assim meio cabreiro. E com alguma razão, que no Brasil vale mesmo é a lei do mais forte. Daí eu não dar assim muito ponto a essa flexibilização da CLT. Livre negociação entre patrão e empregado funciona na Suécia, Noruega, enfim, em países onde operário é mais cheio de queixão do que mulher do sexo feminino no Afeganistão depois que o Mulá picou a mula.
Mas cá tô a tergiversar sobremaneira.
Flamígio sofreu o problema na pele, literalmente, numa das vezes em que foi autuado por explorar o turismo. Não minha senhora, ele nunca foi agente de viagens. Viagens, só as que empreendia no tempo em que labutou numa lavoura alternativa lá pras bandas de Cabrobó. Flamígio estava explorando turistas, em Boa Viagem, vendendo uma braminha da antarctica a preço de uísque 12 anos. Turista paga sem estrilar, que o turismo tem esse dom de transformar em otário qualquer sujeito (ou sujeita, minha senhora, vamos parar com esses feminismos aí?).
Há alguns anos, caminhava eu na praia, quando, de repente, deparo-me com o galego, alto, gordo que nem um major, olhando em torno, feito um abilocildo, para os prédios prontos, as construções, as pessoas. Achei até que fosse um fugitivo da Tamarineira, tamanho o abestalhamento desse indivíduo. Mas aí reconheci o gordinho (gordinho modo dizer, que o cara era ver uma jamanta): tratava-se de Marshall Berman, um americano, inteligentíssimo, autor de um badalado ensaio sobre modernidade, um livro intitulado Tudo que É Sólido Desmancha no Ar. A culpa pelo despirocamento do sábio foi do turismo. Acho que Berman, com aquelas banhas todas deve ter desmanchado-se, já que nunca se soube mais nada sobre ele. Epa, exagerei na tergiversada.
Eu falava sobre o quê mesmo? Ah, sim, Flamígio. Ele foi recolhido aos costumes, e a madeira desceu, que os praças tavam por aqui, ó, com as constantes visitas do sarará à especializada. Era começo de redemocratização, e Flama apelou. Gritou que aquele negócio de telefone, sem o cristão ter feito nenhum solicitação, era proibido por lei, e que exigia seus direitos humanos. Pra quê, diletíssimos cem leitores?
Os algozes interromperam o corretivo e gritaram pro chefe deles, que lia, tranqüilo, um jornal numa sala contígua (??!!): “Doutor, o elemento aqui tá dizendo que o senhor não entende de lei não, e tá exigindo um tal de direito humano dele”. O chefe, presto, interrompeu a leitura, e fez-se presente ao interrogatório. Flamígio não conta detalhes, mas a autoridade certamente lhe mostrou seus direitos humanos, e sobre legislação, ministrou-lhe uma lição exemplar. Tanto deve ter sido assim, que, no dia seguinte, até pruma lei de crente o sarará entrou. É certo que não demorou muito a ser expulso, por dar em cima das irmãs, porém, sem ter idéia até hoje de quem seja Montesquieu, aprendeu para todo o sempre o espírito das leis.
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