Data da matança anual do animal, realizada por pescadores de Suape, coincide com o fim do período reprodutivo, que vai do mês de outubro ao mês de dezembro
VERÔNICA FALCÃO
O ouriço-do-mar, o mais evoluído dos invertebrados, é submetido em Pernambuco a uma matança anual da qual poucas pessoas têm conhecimento. A festa, chamada de ouriçada, é realizada na Ilha de Tatuoca, ao Sul do Grande Recife, por pescadores da Praia de Suape. Este ano na sua 52ª versão, o extermínio ocorreu na última quinta-feira, desta vez com o apoio da prefeitura do Cabo de Santo Agostinho e o aval de cientistas.
O biólogo Múcio Banja, um dos maiores especialistas em ouriços do Brasil, atesta que a captura em massa da espécie, sempre no dia 13 de dezembro, não causa impactos. “A data coincide com o fim do período reprodutivo, que vai de outubro a dezembro, quando o ambiente já está repovoado de larvas da espécie. Além disso, os pescadores capturam preferencialmente os grandes, normalmente adultos”, esclarece o professor da Universidade de Pernambuco (UPE) de Nazaré da Mata.
Outro dado que garante a sustentabilidade da pesca anual do ouriço é a abundância da espécie em Suape. Segundo levantamento de Banja, que há 17 anos realiza estudos no lugar, existem cerca de 48 animais por metro quadrado. Para ele, a ouriçada não se caracteriza numa sobrepesca por ser realizada apenas uma vez por ano. “É mais uma tradição cultural do que um hábito alimentar”, considera o pesquisador, que tem doutorado em oceanografia pela Universidade de São Paulo (USP).
O ritual da ouriçada inclui uma fogueira de palha de coqueiro, onde os animais são jogados ainda vivos. Não muito diferente do que se faz com o caranguejo e o guaiamum, cozinhados vivos porque se forem colocados na água quente perdem as patas. Em cerca de 20 minutos, os ouriços são retirados do fogo de palha e quebrados por um grupo de mulheres, que se reúnem em círculo.
Há quem diga que o ouriço é afrodisíaco, mas ainda não existe comprovação científica no Brasil. O prefeito do Cabo de Santo Agostinho, Elias Gomes (PPS), é um dos que defendem a tese. “Os pescadores garantem que dá potência”, afirma. Além de festejar as propriedades estimulantes da ouriçada, Gomes considera importante o embasamento científico para a realização do evento. “Se fosse uma prática degradadora, a prefeitura teria que rever seu apoio”, afirma ele, que pela primeira vez participou da festa. As comemorações, com atrações musicais na Praia de Suape, prosseguiram até ontem.
Embora tenha recebido apoio do poder público este ano, a festa é realizada por iniciativa dos moradores da Praia de Suape. Os organizadores da ouriçada, o marinheiro Rubem Matos da Vera Cruz, 61 anos, e sua mulher, Alaíde, 59, explicam que seus bisavós já promoviam o evento, há cerca de um século. No começo era na Praia do Paraíso. Mas, com a ocupação do lugar, os pescadores passaram a se reunir em torno da fogueira na Praia de Suape. Há cerca de dez anos a festa é feita na Ilha de Tatuoca, que pertence ao Porto de Suape. Segundo Rubem, a ouriçada é realizada em 13 de dezembro porque na data se comemora o Dia do Marinheiro.