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CRISE INTERNACIONAL
Mercosul tenta sobreviver

Com três dos quatro países do bloco em crise, Mercosul tenta se articular com parceiros como a Índia, a China e a África do Sul

BRASÍLIA – Os quatro presidentes do Mercosul reúnem-se nos dias 20 e 21 em Montevidéu, capital do Uruguai, para avaliar uma ambiciosa agenda de negociações que, a partir do início de 2002, poderá somar a Índia, a China e a África do Sul à lista dos países e blocos com os quais já vêm sendo mantidos entendimentos comerciais. A pauta concentrada na abertura de mercados ao redor do mundo para os produtos do Mercosul, entretanto, atende a uma situação de fragilidade doméstica. O bloco olha para fora de suas fronteiras porque o cenário recessivo em que vive não permite que a integração dos quatro sócios evolua.

“Quer acabar com o Mercosul agora?” Provocou um diplomata brasileiro com larga experiência nas negociações do bloco. “É só sair da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e interromper as demais negociações em curso”, completou.

Na avaliação da diplomacia brasileira, o quadro econômico desfavorável em três dos quatro países do Mercosul (a Argentina é o pior deles) impede o avanço das negociações internas. Conforme foi decidido pelos presidentes em dezembro do ano passado, em Florianópolis, o Mercosul deveria ter mergulhado em 2001 em uma agenda que permitisse seu aprimoramento, seja como área de livre comércio ou como união aduaneira. O processo, entretanto, desmoronou, a tal ponto de disputas internas levarem o Brasil a suspender as negociações bilaterais sobre comércio com seu principal parceiro, a Argentina.

Diante desse cenário – que tenderá a se manter ao longo do próximo ano –, a única forma de assegurar a sobrevivência do bloco seria prendê-lo a uma agenda cada vez mais ambiciosa de negociações comerciais com o restante do mundo. O Mercosul já está envolvido na Alca e nas discussões sobre o livre comércio com a União Européia e com a Comunidade Andina. Nas três frentes, as negociações tendem a deslanchar no próximo ano, quando começará a ser discutida para valer a redução de tarifas e de barreiras não tarifárias. A intenção do Governo brasileiro é dar início às conversas com a África do Sul e pôr em avaliação, na reunião de Montevidéu, a possibilidade de iniciar entendimentos com a Índia e a China.

Do outro lado da mesa, os interlocutores dão sinais de que não se importam com as turbulências vividas pelo Mercosul e de que pretendem levar adiante as conversas. Há cerca de dez dias, o embaixador Peter Allgeier, vice-representante de Comércio dos Estados Unidos, declarou em Montevidéu que o bloco sul-americano continua a ser um interlocutor válido e necessário.

O negociador norte-americano acrescentou que seu país não tem o menor interesse em desarticular as negociações com o Mercosul - seja pela Alca ou por acordo bilateral de facilitação de comércio. De acordo com o embaixador do Brasil na União Européia, Clodoaldo Hugueney, os europeus também compreendem a situação vivida pelo Mercosul e já deixaram claro que pretendem manter a negociação.

SEM DISPERSÃO – Segundo o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Sérgio Amaral, o Brasil não tem a intenção de se dispersar do bloco e de negociar sozinho acordos comerciais mundo afora. Conforme lembrou, o entendimento de que o Mercosul deve buscar, unido, novos mercados para seus produtos surgiu durante uma reunião de ministros brasileiros e argentinos em São Paulo, em setembro, e será mantido pelo País. “Queremos caminhar junto aos parceiros do Mercosul nesse trabalho. Vamos discutir em Montevidéu como podemos nos organizar e nos estruturar. Mas, se nós vamos negociar ou não, isso vai depender de uma avaliação do bloco.”

A Reunião de Cúpula do Mercosul, em Montevidéu, deverá contar com decisões mais tímidas no campo interno. O bloco tentará dar os primeiros passos para institucionalizar sua estrutura e, sobretudo, para deslanchar tópicos da agenda doméstica que permaneceram congelados durante boa parte de 2001.

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Jornal do Commercio
Recife - 16.12.2001
Domingo