Recife vem recebendo novas lojas para o público classe A, como é o caso da Expand Store (vinhos) e da Luna Collection (moda)
LEONARDO SPINELLI
O comércio do Recife vem passando por uma fase de transformação. Se há cerca de cinco anos a classe A da cidade tinha de fazer a ponte aérea São Paulo-Nova Iorque para comprar artigos diferenciados, hoje em dia, muito do que se procura em termos de qualidade, exclusividade, serviços e, claro, preços altos, pode ser encontrado em algumas ruas ‘chiques’ de Boa Viagem e Casa Forte, os dois pólos mais ‘badalados’. O Recife vem presenciando um boom de inaugurações de lojas para o público classe A, como a Expand Store (vinhos finos), no Parnamirim, e a Luna Collection (moda), em Piedade. As duas inauguradas há menos de um mês.
Pessoas como a empresária e socialite pernambucana Socorrinho Leite, começam a ficar satisfeitas com a variedade de lojas de luxo. “Faz uns três anos, o Recife vem ganhando qualidade, apesar de deixar a desejar com relação a São Paulo”, comenta com o embasamento de quem figura nos mailings das lojas mais caras das duas capitais.
Socorrinho Leite faz o perfil do cliente que ‘cega’ para as cifras quando um produto faz a cabeça. Ela conta que há alguns anos gastou nada menos que US$ 12 mil em 12 cadeiras de antiquário, para a sua sala de jantar. Em compensação, ela exige serviço, qualidade e exclusividade. “Procuro lojas que tenham estacionamento, atendimento personalizado e artigos diferenciados.” Por conta disso, todas as marcas não trabalham com mais de uma dezena de produtos iguais. Quase todos são únicos.
É este tipo de cliente que faz lojas como a maison Madison New York, em Boa Viagem. Maisons são butiques de roupas finas que funcionam em casas. No caso do Recife, abre-se uma exceção para as galerias. A Madison, batizada com o nome da avenida mais chique de Nova Iorque, é considerada a Daslu do Recife. Os iniciados sabem que a Daslu é a maison mais cara e fina do Brasil.
O gerente Fernandes Lucena conta a diferença de pontos como a Madison. “O cliente aqui é conhecido pelo sobrenome, medidas e rosto. Sabemos de suas preferências. O PIB (Produto Interno Bruto) está aqui”, exalta.
DIFERENÇA NOS DETALHES – É claro que conforto e qualidade não se encontram apenas nas lojas mais caras. O que as difere das demais são os detalhes. “Roupa se vende em qualquer lugar. Serviço não. Temos bistrô, chazinho, café, suco, levamos o produto na casa da cliente ocupada. Além disso, vendemos glamour, conceito e estilo”, enumera a sócia-propietária da Musa Maison, em Casa Forte, Tereza Penna. A maison instalada ao lado do Plaza Shopping Casa Forte há quatro anos, recebeu em novembro um vizinho de peso. Em frente à loja, inaugurou, em novembro, a Galeria Ponto 587, que reúne a nata das lojas de moda.
Como arma para atrair a seleta clientela, os comerciantes lançam mão de malas diretas. Com este artifício, os lojistas entram em contato direto com seus clientes, que recebem em casa, e em primeira mão, folders com os lançamentos da temporada. Outro diferencial são os eventos. Para marcar as novas linhas e coleções, os mais seletos clientes são convidados para coquetéis, chás, desfiles de moda.
A Artefacto, franquia paulista do ramo de móveis da Conselheiro Aguiar que concentra nos cadastros 10 entre 10 colunáveis da cidade, lançou em novembro a Mostra Artefacto. Reuniu entre canapés e drinques, arquitetos e compradores para mostrar, em ambientes de luxo, as jóias do design moveleiro. “Esse tipo de evento aumenta as vendas”, diz, objetiva, Tereza Penna da Musa Maison.
A Exclusive Line, loja de eletrodomésticos de última geração, realizou na semana passada um evento neste estilo, para mostrar a nova linha inox da multinacional G&E. Apesar do perfil, a loja quer se distanciar da imagem de careira. “Acompanhamos o preço do mercado”, diz a diretora administrativa, Janita Carla.
Ela não é a única negar. A maioria dos lojistas refutam a idéia de serem conhecidos como inatingíveis pelo consumidor comum. Algumas delas, como a Madison, têm até estratégias para ‘pescar’ os clientes eventuais. “Distribuímos folder com o preço das peças mais acessíveis, para atrair outro público”, explica Fernandes Lucena.
O economista da Universidade Federal (UFPE), Alexandre Rands, explica este fenômeno. “Temos lojas para a classe alta, mas elas não se dizem assim. Não querem restringir o mercado. A competicão de preços aqui é mais acirrada, até porque os ricos ainda compram muito fora do Estado.”