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COMPORTAMENTO O Bom Velhinho mora em Rio Doce Ele possui 27 anos, pesa 150 quilos e cria 50 cachorros em casa. Recebo o espírito de Noel todos os anos, diz Gustavo, que acredita em Papai Noel O nome do ator pernambucano Gustavo Maciel provavelmente não vai entrar para a História. Mas, ao contrário de outros mortais, ele pode exibir a condição de homem por trás do mito. Com 150 quilos acumulados em 27 anos de vida, Gustavo acredita ter um tipo físico privilegiado para encarnar o Papai Noel, ícone natalino que ele representa há cinco anos para platéias emocionadas de até 20 mil pessoas. Como fantasias não viabilizam trenós, é com um helicóptero que o ator costuma realizar chegadas apoteóticas nas cidades do interior de Pernambuco. É contraditório: quanto menor a escolaridade, maior é a fé dessas pessoas na existência da figura do Papai Noel. Justamente gente que não recebe presentes dele. Algum remorso por fazer a infância e mesmo adultos acreditarem numa figura, digamos, falsa? Nenhum. Papai Noel existe, garante Maciel. Ele é um espírito de bondade e luz que muita gente recebe no mundo. No começo, tinha muita insegurança, depois percebi que uma energia nos cerca quando vestimos o personagem, acredita ele, que consome cerca de uma hora, entre maquiagens, adereços e orações, se preparando para encarnar o velhinho. Ninguém tem acesso ao seu quarto quando ele está em mutação. Quebraria a fantasia, justifica. Mudo completamente a voz, a postura e o olhar. Tanto empenho faz com que, em vez de descobrirem o segredo devido à proximidade com ele, as crianças de suas família e vizinhança sintam-se orgulhosas em saber quem é o homem que, no Natal, transforma-se no Bom Velhinho. O orgulho também vem do fato de terem descoberto que o Papai Noel não mora no Pólo Norte, mas no bairro olindense de Rio Doce, onde Gustavo vive com a mãe e mais de 50 cachorros recolhidos das ruas. Eu sei que é ele. Se não, como é que eu poderia ter ganho o game que pedi ano passado?, questiona Valter Luís Lima, 9. Numa análise fria, seria de se estranhar como um mito com origem na gelada Lapônia se impôs dentro da tradição familiar brasileira. Algo que fez lareiras e neve combinarem com o calor pernambucano, por exemplo. Meus filhos me pedem para montar a árvore já em novembro, é um acontecimento, diz Luciana Saraiva, a mãe que este ano revelou toda a verdade sobre o velhinho. A força do mito de Noel, contudo, não se deve apenas a seu suposto poder de voar com renas pelo céu. O velhinho tem respaldo no inconsciente coletivo. Como arquétipo, ele representa o pai, portanto, segurança e proteção. E, como pai, é também juiz: só traz presentes para crianças boazinhas, expõe Danielle Rocha, professora de sistema simbólico e coordenadora do Núcleo de Estudos sobre o Imaginário da Universidade Federal de Pernambuco. Por outro lado, pela barba branca e longa, ele encarna o arquétipo daquele que sabe mais do que os outros. Mas essa sabedoria, que pode ser um peso, é aliviada pela roupa vermelha que simboliza a alegria e a vida, diz. Assim como o nascimento de Cristo evidencia o tema da renovação da vida, a visita do Papai Noel, segundo a antropóloga, simboliza também a renovação da natureza. Seu aparecimento cíclico, todo ano, e sua relação com o pinheiro, sempre verde, evidencia isso. Por isso, em muitos países, os presentes são colocados em sua volta. Partidário absoluto da fantasia, o Noel Gustavo se diz decepcionado com a postura de outros atores. Não admito que não se tenha carinho com a fantasia das crianças. Elas passam o ano inteiro esperando o momento mágico do encontro. Acho absurdo também que uma professora quebre o sonho dos alunos dizendo, na sala, que Papai Noel não existe, diz. Mais pragmático que seu colega Gustavo, outro ator, Paulo de Pontes, 33, diz que as crianças de hoje não acreditam no Papai Noel mas gostam de participar do faz-de-conta. É uma espécie de jogo, eles sabem que eu não sou o velhinho, mas entram no jogo, diz ele, com a autoridade de quem passa o dia sentado em shoppings do Recife ao som de canções natalinas nas vozes de Chitãozinho e Xororó, Simone e companhia, recebendo crianças no colo para as fotos de Natal. Não prometo nada às crianças, não se pode enganá-las, defende.(B.A.) |
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