Os principais distúrbios são dislexia, disgrafia e discalculia. Os problemas têm início na infância, geralmente na fase de alfabetização, e se agravam progressivamente na 3ª e 4ª séries do ensino fundamental. Além da doença, o portador sofre com o preconceito
JÚLIA NOGUEIRA
Dificuldades na leitura e na escrita, troca de letras, ortografia indecifrável e impossibilidade de realizar as quatro operações básicas da matemática. Além disso, falta de concentração, preconceito, sofrimento e baixa estima. Essa são algumas características de quem se depara com o problema dos distúrbios de aprendizagem durante a vida escolar.
De acordo com a psiquiatra Helena Sobel, que atende crianças e adolescentes do setor de pediatria do Hospital Universitário Oswaldo Cruz (HUOC), os distúrbios são muitos e, entre eles, pode-se destacar três: dislexia, disgrafia e discalculia.
São problemas que têm início na infância, geralmente na fase de alfabetização, entre os 5 e 6 anos de idade e se agravam progressivamente na 3ª e 4ª séries do ensino fundamental, quando o grau de dificuldade dos conteúdos e avaliações escolares aumenta.
Drª. Helena explica que, nos três casos, existe uma dificuldade persistente no aprendizado. No caso da dislexia, a dificuldade localiza-se no âmbito da leitura. A criança não tem compreensão do que lê; a disgrafia tem como principal característica a escrita indecifrável. As letras lembram verdadeiros ‘hieroglifos’; já a discalculia, mais rara, impede que as crianças realizem as quatro operações básicas da matemática.
Segundo a médica, ainda não se descobriu a causa dos distúrbios, mas hoje já admite-se que haja alterações funcionais, e não anatômicas, já que todos os exames - tomografia, eletroencefalograma e ressonância magnética do cérebro são normais”, diz.
Apesar de não haver precisão nas datas e estatísticas registradas na literatura médica, a primeira descrição de dislexia foi feita no ano de 1895, na Inglaterra. O distúrbio, que também já foi denominado de ‘cegueira verbal’e só passou a ser conhecido pelo termo atual em 1917.
Os dados apontam que cerca de 5% a 20% da população mundial é disléxica. O problema é mais freqüente no sexo masculino: a proporção é de uma menina para cada quatro meninos. No Brasil, não existem números sobre esse tipo de distúrbio. É como se nunca tivesse havido um só caso.
Apesar da estatística negativa, Drª. Helena sinaliza para a importância da diagnose precoce para o sucesso do tratamento. “Quanto mais cedo for feito o diagnóstico clínico, mais fácil será para reverter o problema. O tratamento depende de cada caso, mas pode ser feito com uma reeducação pedagógica e psicomotora com o auxílio de testes de inteligência”, explica.
O passo inicial para a identificação de um ou mais distúrbios não começa pelos médicos e sim pelos pais e educadores. A história de Ícaro Calafange, de 14 anos, é um exemplo de como a falta de informação dos pais e o despreparo dos professores pode ser prejudicial para o desenvolvimento escolar e a auto-estima da criança.
“No início, eu era excluído dos grupos e discriminado pelos meus amigos, e tinha baixa auto-estima. As pessoas achavam que eu era retardado”, diz Ícaro, que tem Quociente de Inteligência (Q.I.) acima da média. “Sou formada em Letras, mas nunca tive informações sobre dislexia e outros problemas de aprendizagem ao longo do curso”, diz a mãe de Ícaro, Selene, que há mais de três anos dedica-se exclusivamente à pesquisa do assunto.
Selene sinaliza para a importância da participação dos pais e a integração com a escola: “Passei a vida toda ouvindo professores me mandando mudá-lo de escola. Isso não resolve. Não é só o aluno que deve se adaptar à escola. O sistema também tem que estar preparado para receber crianças que não conseguem aprender da maneira convencional”, encerra.
A professora Fátima Magnata é autora de diversos artigos e parceira de Selene na elaboração do ‘Projeto Ícaro’, que já despertou interesse da comunidade acadêmica. O projeto visa dar palestras e oficinas de capacitação sobre dislexia para pais e professores. Fátima lembra que “se um aluno que é disléxico grave, for apenas avaliado pelo teste tradicional, será sempre condenado ao fracasso. É preciso mais interesse por parte das instituições de ensino, para que a discriminação contra essas pessoas possa acabar”, finaliza.
Serviço
Leia mais sobre dislexia em:
www.dislexiarecife.hpg.com.br
Para se comunicar com Selene e Fátima
scalafange@hotmail.com
sbcalafa@terra.com.br
mfmag@terra.com.br