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ECOTURISMO II
Vida selvagem com piscina ao lado

O Pantanal continua sendo, felizmente, um dos mais intocados recantos do País. Mas sabe receber bem o turista em suas ótimas pousadas e hotéis


NO POÇÃO Seu Idelfonso e sua ‘criação’ de jacarés: animais, bem alimentados, não molestam os cavalos que carregam turistas dentro da lagoa.

A hóspede francesa não para de gritar “terrific!” entre uma colherada e outra do consomeé de piranha, uma das mais ilustres iguarias pantaneiras. Enquanto isso, o casal de turistas vindo da Alemanha observa, curioso, as dezenas de tucanos que cercam a pousada Aguapé, um confortável oásis incrustado no Pantanal. É curioso observar como a região continua a encher os olhos da população estrangeira. Para nós, que ainda associamos as pernas de Juma Marruá quando ouvimos falar da planície pantaneira, ela ainda permanece uma ilustre desconhecida. Já o turista europeu (o que mais procura o destino), atraído pela aura ‘selvagem’ que tanto caracteriza o Brasil lá fora, chega maciçamente ao local, principalmente nos períodos da cheia (janeiro a junho).

“Cinqüenta e cinco por cento de nossos hóspedes são estrangeiros”, confirma o proprietário da pousada Aguapé, José Idelfonso, que gradativamente vem deixando a pecuária (principal atividade econômica da região) para se dedicar ao ecoturismo. A prática, muito comum no Pantanal, não envolve apenas a ideologia ‘politicamente correta’. Preservação no Pantanal, hoje, significa dinheiro. “Todos os fazendeiros daqui já perceberam que destruir o ecossistema local é um péssimo negócio. É exatamente a natureza que chama o turista para cá”, diz Idelfonso, um dos responsáveis pelo singular clima de ‘casa’ presente na Aguapé, localizada 190 quilômetros de Campo Grande e a 60 quilômetros do município de Aquidauana (conhecido como Portal do Pantanal). Na fazenda-pousada, que pertence a uma mesma família há mais 150 anos, todas as refeições são feitas numa grande mesa construída sob um caramanchão. Enquanto seu prato é preenchido com delícias como a sopa paraguaia (um suflê de queijo com milho), os pássaros que cercam a propriedade cantam e imprimem um ar muito pitoresco ao local. Pela manhã, o espetáculo é maior: a cantoria é a responsável por tirar muitos hóspedes da cama.

É tentadora a idéia de permanecer na pousada se empaturrando de churrasco (é impressionante como os pantaneiros comem carne vermelha, talvez mais do que qualquer gaúcho) e descansando nas belas redes de couro feitas na região (uma custa, em média R$ 150). Mas o Pantanal é muito mais do que a boa vida oferecida pelas suas ótimas pousadas, e, de lá mesmo, é possível conhecer o que essa fantástica região tem para oferecer. Conhecer os pantaneiros é uma das atrações: simpáticos, eles ganham qualquer um com suas histórias de ‘bicho brabo’ (além do curioso sotaque que mistura paulistanês e mineiro). Zezé, um dos funcionários da fazenda São José (onde está a Aguapé), acompanha o turista nos passeios e ainda resolve eventuais ‘broncas’ que possam surgir. É dele uma das mais curiosas observações sobre o ritmo de vida que se leva numa fazenda construída bem distante de alguns confortos da vida moderna, como supermercados, bares, boates ou mesmo uma simples estrada asfaltada. Quando perguntado sobre o grande campo de futebol construído perto da fazenda, ele resume: “Foi a gente que fez esse campo aí, pra bater uma bolinha. Mas acabamos jogando só uma vez mesmo”.

BICHO DO MATO – Um dos passeios mais procurados pelos turistas que visitam o Pantanal é o de observação de animais selvagens. A estrela, é claro, é a famosa onça, o maior mamífero pantaneiro. Se ver o animal, como você já sabe, é uma questão de sorte, o mesmo não acontece com bichos como o jacaré, o tamanduá, o tuiuiú (ave-símbolo da região), além de aves como tucanos e araras. Perto da Aguapé existe uma espécie de lagoa chamada Poção, para onde são levados todos os visitantes. Não se anime com o nome bucólico: a lagoa está recheada de jacarés, nenhum deles com cara de muitos amigos. Para atraí-los, é comum que os ‘guias’ (os próprios pantaneiros ou trabalhadores de fazenda) joguem grandes pedaços de carne. É impressionante: em questão de minutos, dezenas de jacarés surgem do Poção e cercam Idelfonso e Zezé, em busca de um naco de boi. Bem alimentados, os jacarés nunca atacaram os cavalos que levam a bordo os turistas que optam pelo passeio montado. Detalhe: durante a caminhada, os animais passam dentro do Poção, repleto de jacarés. Haja coragem. Vale lembrar que o safári de mentirinha é feito num carro grande, que garante mais segurança para o visitante (é comum encontrar jacarés pelo caminho, pro exemplo). Passear de balsa pelo Rio Aquidauana é outra opção de passeio bastante comum. A pesca de piranhas, uma das práticas mais famosas entre os pescadores, pode ser feita aqui mesmo, com apoio dos botes da própria pousada. O passeio permite surpresas como ouvir a algazarra dos macacos e observar as trilhas que os porcos selvagens fazem pelas margens do rio. Com sorte, você talvez encontre ela, a onça. (F.M.)

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Jornal do Commercio
Recife - 13.12.2001
Quinta-feira