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CINEMA
A excelência em forma e conteúdo

Taurus, o filme de Alexander Sokurov, surpreende Cannes ao mostrar, de forma nunca antes vista, os últimos e decadentes dias de Lenin

por KLEBER MENDONÇA FILHO
Enviado especial

CANNES, França – O russo Taurus, de Alexander Sokurov, põe a competição num rumo completamente diferente. Na verdade, é um desses filmes que se destacam pela linguagem. É cinema de imagem refinada, especialmente ao dar hora extra para sofisticar elementos visuais que marcam o filme como uma assinatura que não se apaga.

Sokurov esteve na competição há dois anos, com Moloch, a primeira parte do que ele chama “A Teatrologia dos Ditadores do Século 20”. Quem viu Moloch, a primeira parte desta série, poderá lembrar do seu conteúdo visual, retrabalhado em Taurus com igual afinco. Em Moloch, Sokurov filmou um estranho final de semana com Adolf Hitler e Eva Braun. Em Taurus, acompanhamos os últimos meses de um Lenin já moribundo. O ator Leonid Mozgovoy (Lenin), direção de arte e fotografia nos dão a impressão de estarmos diante de um filme da época. Impressionante.

Taurus é um filme especial que fascina, mas que chama também a atenção do espectador pela sua absoluta lentidão. Se isso poderá revelar-se desconfortável para despreparados, tente enxergar o filme como uma análise perfeita do ser decrépito, de um corpo sem alma que já foi responsável por tantas ações e reações, mas agora decadente física e mentalmente.

Dá também ao filme qualidade impossível de traduzir em palavra escrita. De qualquer forma, Sokurov parece concentrado demais na textura do seu filme. Detratores poderão acusá-lo de filmar cenários impecáveis e atores perfeitamente caracterizados de dentro de um aquário, com a lentidão de um escargot.

De qualquer forma, acusar o filme de lentidão é como aborrecer-se com o ritmo de um jogo de xadrez. Sokurov é o responsável por imprimir um estilo visual que o espectador jamais viu, e que jamais verá novamente. Espere, por exemplo, até o plano final de Taurus, a imagem sublime que fecha o filme. É cinema, especialmente por juntar dois pedaços de imagem (montagem) e tomar os sentidos do espectador de assalto, imagem nítida, mítica e mesmo religiosa, tanto na sua forma como no seu significado.

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Jornal do Commercio
Recife - 20.05.2001
Domingo