por JOSÉ TELES
A RCA, incorporada em 1986, pelo grupo BMG, está completando 100 anos em atividade. A data, naturalmente, será comemorada com discos, mais precisamente, com o relançamento de cem títulos do catálogo da RCA. Alguns dos CDs: Cuidado Moço, Jamelão, Cartola 70 anos, Se Todo Mundo Cantasse Seria Mais Fácil, Wilson Simonal, Introspection, Luís Bonfá.
No catálogo da RCA estão as discografias inteiras de dois dos maiores ídolos da Música Popular Brasileira em todos os tempos: Nelson Gonçalves e Luiz Gonzaga. No auge do baião, as prensas da gravadora chegaram a funcionar exclusivamente para os 78rpms do pernambucano. Portanto, nada mais justo que Luiz Gonzaga inicie a série dos cem anos da RCA, e com um disco precioso.
Luiz Gonzaga Volta Pra Curtir é um raro registro de um show de Gonzagão. Ele tem outros álbuns ao vivo, mas a importância desse é ser o único de um show de Gonzaga com seu conjunto, o LG Som, e numa época em que ele saía do ostracismo, para voltar a ser requisitado pelo público universitário. Ao Vivo Pra Curtir origina-se de uma apresentação no teatro Tereza Rachel, no Rio, em 1972. A produção foi de Capinam e Jorge Salomão. Na platéia estavam o fã Caetano Veloso, o antigo parceiro Humberto Teixeira, Gil, Gal, Macalé, Jorge Mautner, Glauber Rocha, enfim, a nata da cultura dos ‘anos do barato’.
A fita passou todos esses anos com Hugo Pereira Nunes, do Marketing Especial da BMG, que a encontrou por acaso, e providencialmente no exato momento em que o forró volta pra ser curtido. Pena que o show não tenha sido filmado, porque Gonzagão reapareceu com gosto de gás. Estava em dia de graça, falastraz (”foi aí que comecei a enrolar o povo”, comenta antes de cantar a seminal Baião), politicamente inclassificável (solta elogios ao então deputado e futuro Ministro da Justiça Armando ‘Nada a Declarar’ Falcão, para, logo a seguir, fazer uma diatribe contra o voto de cabresto), abre espaço para baixo e guitarras elétricas entre a zabumba, a sanfona (empunhada pelo novato Dominguinhos) e o triângulo (tocado por Maria Helena), e desfia por mais de uma hora um rosário de impagáveis e ortodoxos clássicos, que levou à platéia às lágrimas (segundo testemunho de Jorge Salomão).
Entrando na casa dos 60 anos, Luiz Gonzaga mostra um pique impressionante. O show é um moto contínuo, que nem as acaloradas palmas interrompem. A cada duas ou três músicas, Gonzagão conta “causos” bem humorados, mas o conjunto não para de tocar, e ele, tal um proto-rapper, antecipa-se ao rhythm and poetry, e fala no compasso do baião. Um show perfeito, em que Gonzaga não comete um único deslize, não se ouve uma só nota fora do caco, nenhum instrumento destoando.
A escolha das músicas foi feita de uma forma que, em 15 faixas, conseguiu-se uma panorâmica das diversas nuanças do forró: do baião, ao rojão; do xaxado ao xamego; do xenhenhém ao xote. E mais que tudo, ali está a voz guia da música nordestina, e de grande parte da música brasileira. Praticamente todos os artistas na platéia do Tereza Rachel são rebentos musicais de Luiz Gonzaga. A lamentar no disco apenas os 29 anos de inexplicável ineditismo dessa fita.