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MÚSICA III
Cussy apresenta uma missa 100% brasileira

Criada em homenagem aos 500 anos do Descobrimento, a obra bebe na fonte popular e abre espaço para homenagear Luiz Gonzaga, o pernambucano do século

por PAULO SÉRGIO SCARPA

Criada entre maio e outubro de 1999 em homenagem aos 500 anos do Descobrimento, a Missa Brasileira para Orquestra e Quatro Vozes, do maestro Cussy de Almeida, terá sua estréia mundial amanhã, às 20 horas, no Teatro da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), com solo de Paulo Adriano dos Santos. Na mesma noite será prestada homenagem ao compositor Luiz Gonzaga, o pernambucano do século 20, com a apresentação da suíte Gonzagueana - 12 Cenas dos Sertões, um arranjo para orquestra, coro, solista e recitante da professora baiana Ilza Nogueira, com a participação do sanfoneiro Domiguinhos e o recitativo na voz do repentista Oliveira de Panelas.

Rafael Garcia é o regente, à frente do Coral Villa-Lobos (João Pessoa) e orquestra formada pela pianista Ana Lúcia Altino, músicos e professores da Orquestra Sinfônica da Paraíba e da Universidade Federal da Paraíba. Cussy de Almeida recorreu ao cancioneiro popular anônimo para compor a sua Missa. Alguns temas foram recolhidos por pesquisadores da música popular brasileira; outros, diretamente pelo maestro em várias regiões do Nordeste.

O Kyrie, canto inicial da missa, tem temas e ritmo do congo ou congadas: uma homenagem aos negros. O Glória, canto de exaltação e de caráter festivo, já possui os ritmos dos cantores de viola e rabeca. Para o Credo, manifesto da fé cristã, o compositor manteve o texto latino cantado na íntegra, mas foi buscar entre os índios o tema inicial executado por uma espécie de trombeta de bambu de dois metros de comprimento. A polirritimia do maracatu está presente na estrutura melódica do Sanctus, com o uso do agogô, bombo e surdo, cada um expondo o seu ritmo individualmente. No Benedictus, canto de louvação a Jesus Cristo, a presença dos caboclinhos com suas preacas, arcos e flechas estilizados. Ao final, o Agnus Dei, momento de recolhimento e reflexão na liturgia católica, foi composto no estilo da modinha ou seresta; e é também o momento em que Cussy de Almeida inclui algo da música popular urbana através do uso do violão e bandolim.

A homenagem a Luiz Gonzaga da professora da Universidade Federal da Paraíba, Ilza Nogueira, é dividida em 12 cenas: Apresentação, Dia-a-dia, Devaneio, Crendice, Dificuldade, Imposição e Solução, Lembrança e Desejo, Presságio e Planos, Volta, Júbilo, Gratidão e Reconhecimento. Toda ela composta a partir de temas criados por Gonzagão em suas músicas: o sertanejo, a seca e a retirada, a conquista do Sul e a saudade do retirante, o regresso e a glória do Rei do Baião. A suíte percorre o cancioneiro do Mestre Lua, da época das canções exaltando o boiadeiro e o sertão aos inesquecíveis baiões. A seleção das canções contemplou distintos gêneros como toadas, baiões e xotes e a seqüência procurou compor uma evolução temática em torno do que Ilza Nogueira chama de o ‘herói sertanejo’, aquele que acabaria se tornando mais tarde o ‘herói nacional’.

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Jornal do Commercio
Recife - 20.05.2001
Domingo