O Gralha chega às bancas sob a perspectiva de jovens quadrinistas do Paraná, terra natal do personagem
por CAROL ALMEIDA
Um pássaro que tira as sementes de árvores para, em seguida, as enterrar, como se, ingenuamente, as esquecesse ali e deixasse assim uma nova árvore crescer. E se heroísmo significa ceder o bem ao mundo sem nada dele pedir em troca, então nada mais heróico que um pássaro como esse. Seu nome: gralha, pequena ave residente na região mais fria do Brasil, o Sul. Nada mais oportuno, então, que usar esse passarinho como emblema e símbolo de um herói homônimo dos quadrinhos. O Gralha foi criado nos anos 40, pelo ilustre desconhecido autor Francisco Iwerten. Suas edições foram raras, assim como é raro achar um exemplar original de suas poucas revistas. Este mês, no entanto, chega às bancas uma edição especial desse tão incógnito herói.
O Gralha (Via Lettera, R$ 112 páginas, 21 x 28 cm) é uma reunião de histórias, desenvolvidas por jovens quadrinistas paranaenses que, em outubro de 97, começaram a resgatar o igualmente jovem herói na revista Metal Pesado, em comemoração aos 15 anos da Gibiteca de Curitiba. A partir de então, aqueles desenhistas, roteiristas e artistas gráficos decidiram levar adiante o projeto e selecionaram para o recém-lançado livro uma coletânea de novas histórias do ‘G’.
Antes de mais nada, é preciso esclarecer em que ‘categoria’ de herói está classificado esse misto de homem e pássaro. O Gralha é o alter-ego de Gustavo, um rapaz que ainda está na fase ‘Eduardo’ (vide Eduardo e Mônica) de ser; ou seja, freqüenta cursinhos de vestibular, paquera garotas pelo seu biotipo e não curte muito os estudos. Seu tempo se situa numa avançada década desse novo milênio e seu lar é a cidade de Curitiba, ou melhor, uma evoluída e cibernética Curitiba. Vale ressaltar que esse cenário naturalmente foi adaptado e que, no original de Iwerten, o Gralha era um homem com um sinistro bigodinho (daqueles do tipo ‘malandro carioca’), cabelos loiros e uma máscara do tipo Baile de Carnaval. Em seu novo guarda-roupa, o herói ganhou um colante negro, subtraiu a letra ‘G’ do peito e somou um bico que, em algumas ocasiões, fica muito brega, mas vá lá.
Os autores e desenhistas desta edição são, em alguns momentos, deslumbrados e ingênuos demais com o personagem e seu espírito destituído de qualquer instinto maléfico. Outros, porém, usam e abusam do herói para criar uma nova estética e, quem sabe, brincadeira, como é o caso das bem-humoradas histórias de Ântonio Éder – destaque para o roteiro Lugar de amigo é no inferno, com arte de Jairo Rodrigues, no qual a história do Gralha é toda desenvolvida como segundo plano de uma trivial conversa de amigos.
Vale dar uma especial atenção, também, ao Encontro com Letícia, troféu HQ Mix de desenhista revelação para Luciano Lagares. Pode ser coincidência, ou não, mas as melhores histórias desta edição surgem justamente nos momentos em que o heroísmo é sinônimo de ingenuidade (a mesma do pássaro em depositar as sementes na terra) e não nas horas do herói de peito estufado.