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DISCO
R.E.M. volta a revelar sua perfeição em fazer música

Em seu novo trabalho, Reveal, o grupo norte-americano reafirma sua longevidade criativa, depois de 20 anos de carreira e uma dezena de discos, e arranca elogios até do megastar Bono Vox, vocalista do U2

por SCHNEIDER CARPEGGIANI

Com duas décadas e uma dezena de discos nas costas, o R.E.M. consegue manter intactas a força musical/emocional do seu trabalho e a capacidade de Michael Stipe em ainda encontrar, nas suas letras, epifanias na rotineira briga amor x ódio. Até mesmo Bono Vox – vocalista do U2, ainda a maior instituição de rock do planeta? – recentemente comentou seu espanto diante da longevidade criativa do grupo, depois de escutar Reveal (’Revelar’, em inglês), novo trabalho dos americanos, lançado na última semana em todo o mundo.

Reveal, sua estréia no novo milênio, parece querer fazer um grande balanço do que foi a década de 90 para o grupo – período cheio de loops, reviravoltas e novos caminhos musicais, todos eles na contramão do que o resto dos artistas batizavam de novos caminhos. Primeiro, foi a superexposição de Out of Time, com o sucesso dos singles Losing my religion e Shine happy people. Pérolas pop, perfeitas, levadas à estratosfera das paradas e do gosto do público.

RESPOSTA – Logo em seguida, Automatic for the People surgiu como uma resposta ao fato do R.E.M. não se sentir confortável em querer agradar FMs: um disco punk lento, repleto de tons noturnos, a perfeita antítese a Out of Time – mais ou menos o que o Radiohead fez ano passado com com Kid A, após a alta taxa de popularidade de OK Computer.

Em 94, Monster ligou a tomada do barulho, da sujeira, quando o mundo começava deixar de querer ser grunge. Foi um CD que recontava, à sua maneira, a velha equação amor = guitarras em alto e bom som. No finalzinho de 98, Up se mostrou um disco de transição, apontando novos rumos, que deixou muitos fãs sem entenderem nada, mas que trouxe pelo menos um clássico: a balada At my most beautiful, uma das mais pungentes e rasgadas declarações de amor já escritas por Stipe.

REVELAÇÃO IMEDIATA – Quem não entendeu Up, vai se derramar por Reveal. Um CD que não precisa de muito tempo para se ‘revelar’ (com o perdão do inevitável trocadilho) para o ouvinte. Os experimentos do álbum anterior ainda estão lá, mas Reveal é R.E.M. puro: da alma, corpo até a medula e o coração. Melhor adjetivo não pode haver.

Não mais do que a introdução The Lifting é necessária para o CD lhe conquistar. Balançada, a canção encontra Michael Stipe cantando, todo feliz: “Você disse que o ar estava cantando/ Ele está lhe chamando/ Você não acredita?/ Bom dia, como vai você?/ O tempo está bom, o céu, azul/ Perfeito para nosso encontro.”

Com sentimento semelhante ele está em Imitation of life, a mais cantarolável canção do R.E.M. desde Man on the moon, em uma letra que fala de amor, lembrando de sabores como açúcar, canela e Hollywood. O céu claro se dissolve nas baladas Disapear (”Eu lhe procurei por todos os lugares/ Por que você tinha de estar aqui?”) e Saturn return, em referência ao fenômeno astrológico, que muita gente também chama de ‘a crise dos 30 anos’.

Mais uma vez, Stipe prova que sabe ser caleidoscópico como ninguém ao tratar dos sentimentos humanos.

Para encerrar Reveal, Beachball tem uma arranjo que é pura fanfarra, com cordas, sopros e trechos da letra em francês, tão perfeita que faz a gente lembrar que sempre vale a pena esperar pelo R.E.M.

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Jornal do Commercio
Recife - 20.05.2001
Domingo