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ESTATÍSTICA
Queda na natalidade levará Pernambuco a envelhecer mais cedo

Dados do último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que, entre os anos de 1992 e 2000, a média do número de filhos em Pernambuco caiu de 2,7 para 2,3. Provocada pelo alto índice de esterilização das mulheres, a redução da fertilidade vai terminar prejudicando o crescimento populacional do Estado

por MARCELO ROBALINHO

Durante a última década, a população de Pernambuco teve um ritmo de crescimento cada vez menor e um aumento da expectativa de vida de 60,9 para 63,4 anos. Os dados, referentes ao Estado, apontam para uma nova realidade que começou a se configurar a partir das mais recentes projeções demográficas. Além de estar passando por um processo de envelhecimento, o que ampliará os gastos com previdência, Pernambuco poderá ser um dos primeiros do Nordeste a atingir, dentro dos próximos 20 anos, um crescimento populacional próximo a 0. Isso já ocorre em outros países, a exemplo do Japão, da Itália e da Suécia, onde já se verifica índices negativos e uma população notadamente idosa.

O problema, segundo os últimos resultados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), está estritamente relacionado à queda contínua e acelerada da taxa de fecundidade. De 92 para cá, a média de filhos por mulher pernambucana passou de 2,7 para 2,3. Segundo os especialistas, essa diminuição vai levar Pernambuco a atingir a taxa de reposição (um índice que garante a manutenção da população), que é de 2,1. “A diferença é que o controle da fecundidade, nos países desenvolvidos, não é dominado pelo uso de métodos anticoncepcionais definitivos, ao contrário do Brasil, onde a ligadura de trompas já faz parte da cultura do povo como a forma mais segura e eficaz de evitar novos filhos” indica André Junqueira Caetano, pesquisador do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Em Pernambuco, só para ter uma idéia, o percentual de mulheres esterilizadas chega a 45% na população feminina entre 15 e 49 anos (período considerado reprodutivo). Devido à popularização do método, a esterilização acabou se tornando a forma contraceptiva mais utilizada no País, sobretudo no Nordeste, onde as mulheres pobres passaram a ver a laqueadura como uma conquista social. “Antes de ter o meu último filho, o José Carlos, que hoje está com seis meses de idade, eu tomava pílulas e injeções para evitar outra barriga, mas os remédios sempre me faziam mal porque eu vomitava muito”, justifica a dona de casa Anita da Silva Senhorinho, 29, moradora de Paulista, região metropolitana.

Dentro em breve, Anita, casada pela segunda vez, será mais uma pernambucana a fazer parte das laqueadas. Depois de ter três filhos, ela decidiu que nunca mais vai engravidar. Procurou o Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (Cisam), na Encruzilhada, e já é uma das candidatas à operação. “Muitas vezes, a opção pela cirurgia não é autônoma. O contexto social de pobreza e a dificuldade de acesso a outros métodos contraceptivos são determinantes para a ligação de trompas, principalmente, nas classes menos favorecidas”, comenta a gerente da Divisão de Saúde da Mulher da Secretaria Estadual de Saúde (SES), Gilvânia Maria da Silva.

ESTUDO – Essa realidade é mostrada por uma pesquisa concluída recentemente por Gilvânia e pela assistente social e sanitarista Débora Maltez Costa. A partir da análise de 259 entrevistas com mulheres esterilizadas no Cisam, as pesquisadoras constataram os principais motivos para o excesso de laqueaduras. A falta de condições financeiras aparece em primeiro lugar, com 37,5%. Em segundo fica a satisfação com o número de filhos, com 15,2%. Em terceiro, está o esforço e a responsabilidade para criá-los, com 9%. “Não era brincadeira ter de cuidar de cinco filhos. Eu ainda saía para trabalhar fora para ajudar no sustento da casa”, conta a doméstica Isaura Vieira da Silva, 52, laqueada há 24 anos. No seu caso, porém, a esterilização acabou influenciando, ainda, uma de suas filhas, Rita de Cássia, que optou também pela realização da cirurgia.

“É preciso discutir o que significa uma fecundidade de reposição e um possível decréscimo populacional em um País como o Brasil, que apresenta fortes disparidades regionais e onde o principal método contraceptivo é a ligação de trompas. Uma das conseqüências será uma maior dificuldade em disseminar o uso de métodos não-definitivos”, afirma André Junqueira Caetano, do Cedeplar. Esse problema, segundo ele, levaria cerca de duas gerações para ser revertido, uma vez atingida a taxa de reposição.

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Jornal do Commercio
Recife - 20.05.2001
Domingo