Por ser considerada uma forma eficiente e relativamente barata de não ter filhos, a esterilização acabou se tornando, em vários pontos do Nordeste, moeda de troca por votos para os políticos, que, dessa forma, conseguem a cirurgia gratuitamente para as mulheres. Em Pernambuco, essa relação de clientelismo foi constatada por uma pesquisa realizada pelo demógrafo André Junqueira Caetano, em sua tese de doutorado pela Universidade do Texas, defendida ano passado.
De acordo com os resultados, 78% das 280 mulheres entrevistadas em municípios da Zona da Mata, Agreste, Sertão e Região Metropolitana do Recife responderam que a ligadura de trompas foi feita, gratuitamente, graças à ajuda de políticos, enquanto que 22% pagaram do próprio bolso.
Entre as mulheres laqueadas, 33% disseram que a cirurgia foi feita por médicos envolvidos em política; 37%, por profissionais não-envolvidos diretamente com política; e 8% afirmaram que a operação foi paga por políticos. “Apesar de o percentual mais alto ter sido observado entre os aparentemente não-envolvidos com a política, verificou-se que esse grupo incluía médicos que fazem a esterilização por caridade, ou porque desejam construir seu capital político por meio de favores que podem ser utilizados no futuro”, revela André Junqueira. Na maior parte dos casos, no entanto, o custo para os ‘beneficiadores’ da cirurgia foi mínimo, uma vez que usaram o Sistema Único de Saúde (SUS) para cobrir o valor das operações.
“Para realizar a laqueadura, é preciso que haja, acima de tudo, ética profissional”, opina o médico Luiz Roberto de Araújo, que atua na área de Ginecologia e Obstetrícia há 15 anos, em Timbaúba, a cem quilômetros do Recife. Considerado pelas mulheres da cidade o mais conceituado profissional do setor, Luiz é o recordista em números e resultados positivos nas cirurgias de ligadura de trompas. “Mas não sou daqueles que faz de tudo por dinheiro ou por um voto”, defende-se o médico, que também é político do município.
Apesar de não ter sido eleito vereador nas duas últimas vezes em que concorreu ao cargo, doutor Luiz, como é conhecido, superou a casa dos mil votos. Para ele, foram na maioria de suas pacientes. Como normalmente não cobra pelas cirurgias de ligadura, no período de campanha política a demanda cresce significativamente. Atuando agora como secretário de Saúde municipal, Luiz Roberto está desenvolvendo um programa de atendimento gratuito para realizar laqueaduras em mulheres carentes com mais de cinco filhos.
“Dez por cento das mulheres que fazem a cirurgia de ligadura acabam se arrependendo. Quando isso ocorre, encaminho as pacientes para o Cisam, onde é feita a cirurgia de recanalização das trompas”, informa Araújo. Segundo ele, em 20 anos de atividade, apenas duas mulheres engravidaram após a operação. “No Nordeste, o político local costuma ser visto como um filantropo, que faz da esterilização um nicho de favores, principalmente nas áreas mais pobres”, reconhece André Junqueira.