Apesar de a doença ser um tipo de acidente de trabalho, conforme a legislação vigente, profissionais têm enfrentado obstáculos para conseguir se aposentar
por PAULA LOURENÇO
Os trabalhadores que desenvolvem atividades durante horas seguidas, em computadores e máquinas industriais, por exemplo, devem ficar atentos aos perigos que as lesões por esforços repetitivos (LER) ou os distúrbios osteomoleculares relacionados ao trabalho (Dort) podem trazer para a saúde e a manutenção do emprego. Como se não bastasse o fato de suportar as dores das lesões, dezenas de profissionais do Recife estão sendo demitidos. Eles se queixam, ainda, da brevidade das licenças médicas e da dificuldade em obter aposentadoria no INSS, mesmo sendo a LER um tipo de acidente de trabalho, conforme a legislação vigente.
Uma das pessoas que lutou para voltar ao trabalho foi o bancário José Guerra Júnior, que lida com computadores há 20 anos e foi demitido em junho passado, após apresentar uma forte crise de cinovite (inflamação nas mãos). “Quando descobriram que eu estava com LER, tiraram-me da empresa”, disse. Ao mesmo tempo que fazia fisioterapia e aplicação de corticóide para reduzir as dores dos cotovelos, ombros, mãos e tendões ressecados, Guerra tentava voltar ao trabalho por meio de negociações entre o sindicato e o banco. Durante oito meses, recebeu o auxílio-doença acidentário do INSS e, em fevereiro deste ano, conquistou o direito de voltar ao emprego.
“Assim como José Guerra, cerca de 25% dos bancários do Estado sofrem com algum tipo de LER, ainda que camufladamente”, explica Francisco Bitú, secretário de Saúde do sindicato da categoria. Segundo ele, o número de pessoas com lesões tem aumentado nos últimos cinco anos, por causa da sobrecarga de trabalho. “Tem gente que prefere omitir a doença e trabalhar oito horas por dia a perder comissões, o emprego, ou sofrer represálias dentro da empresa”, observou.
INSS - Portadora de Dort desde 1996, a digitadora Cristina (nome fictício) foi demitida em 1999 e também retornou ao serviço com a ajuda do sindicato. No entanto, por não conseguir realizar oito horas de trabalho repetitivo, ela foi novamente afastada pela empresa. “Fui licenciada pelo INSS para fazer fisioterapia, mas o prazo para a recuperação foi insuficiente. Os médicos do instituto não têm critério para avaliar nosso problema porque simplesmente não são da área”, argumentou.
Há três meses, ela aguarda uma autorização do INSS para retornar à empresa, mas em outra função. “Eles dizem que devo voltar para o trabalho, ficar numa cadeira de balanço e aguardar a hora de ser demitida”, desabafou.
A ex-bancária Rosa Bezerra também tem queixas. “Em 1993, comecei a sentir dores nas mãos, cotovelos e ombros, a ponto de me tornar ‘freguesa’ da emergência do Hospital Português. As dores pioraram em 96, minha mão atrofiou, mas o INSS insistia em não me aposentar, só concedendo licenças. Resolvi entrar com ação judicial e administrativa contra o instituto e, só depois de quatro anos, me aposentaram.”