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Documentos mudam história do período holandês no Estado

Manuscritos guardados no Arquivo Histórico Ultramarino revelam que, na dominação flamenga, Portugal e Holanda negociaram a troca de possessões na África pelo Nordeste

por CLEIDE ALVES

Pernambuco já tem sua história praticamente na palma da mão. Está chegando ao fim o trabalho de recuperação de documentos coloniais portugueses referentes à antiga capitania, que repousam no Arquivo Histórico Ultramarino. Em dois anos de pesquisa, foram encontrados mais de 30 mil documentos sobre a Capitania de Pernambuco. Vinte e cinco por cento do material, no máximo, já era conhecido, mas apenas de alguns historiadores locais, como José Antônio Gonsalves de Mello. Os 75% restantes ainda precisam ser explorados e, com certeza, irão contribuir para uma melhor compreensão da história.

Os documentos que virão para Pernambuco, microfilmados, deverão provocar uma grande revolução historiográfica, na avaliação da coordenadora acadêmica do Projeto Resgate no Estado e professora do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal (UFPE), Socorro Ferraz. São cartas de escravos pernambucanos dirigidas ao rei, abaixo-assinado de moradores contra João Fernandes Vieira (século 17), correspondências trocadas com Portugal no período da dominação flamenga no Nordeste brasileiro (1630-1654).

“As informações colhidas são muito importantes e poderão mudar a história da presença holandesa em Pernambuco”, exemplifica a professora. A documentação confirma que, mesmo com a ocupação flamenga, não houve interrupção de correspondência jurídica e institucional entre Pernambuco e Portugal. “Pelo volume de documentos produzidos nesse período, percebe-se que a dominação holandesa foi de fato restrita, do ponto de vista territorial, e se fez por intermédio da conquista militar sem nenhuma outra interface”, analisa.

Ou seja, é como se existisse um Estado português presente na Capitania de Pernambuco o tempo todo, durante o período holandês. Segundo Socorro Ferraz, o material resgatado mostra que havia acordos e negociações entre Portugal e Holanda, sem levar em conta os lusos-brasileiros. Exemplo é a resposta do rei D. João IV ao Conselho Ultramarino, sobre o pedido de ajuda bélica feito por João Fernandes Vieira e André Vidal de Negreiros (heróis da Restauração) à Coroa Portuguesa para expulsar os holandeses.

Em seu despacho, o rei comunica aos conselheiros que “esses dois senhores estão me fazendo um desserviço”. No entendimento da professora, isso prova que os acordos com os holandeses estavam bastante adiantados, e, portanto, a Restauração Pernambucana iria atrapalhar os planos da Coroa. Um mergulho nos documentos irão desvendar os meandros dos acordos entre os dois países. “Portugal negociava possessões na África ocupada pelos holandeses e o comércio na Ásia. Em troca, os holandeses comprariam o Nordeste do Brasil”, adianta.

Outros documentos do século 17 revelam as picuinhas do período colonial. Cartas anônimas ou assinadas, endereçadas à majestade por pernambucanos, acusam João Fernandes Vieira de crueldades, tiranias, insultos e alianças com holandeses e judeus que estavam no Recife e em outras localidades. Numa delas, é comentada a nebulosa origem de Fernandes Vieira, dizendo que ele “é filho da bem feitinha”, “filho de uma mulata rameira com um homem que lhe dão por pai”, “que tem o título de ladrão e que vive amancebado com a mulata Bernarda.”

Socorro Ferraz explica que as acusações são tentativas de afastar Fernandes Vieira do poder que exercia sobre as capitanias de Pernambuco e da Bahia. A professora afirma que no Arquivo Histórico Ultramarino (Lisboa) há documentos preciosos sobre a Revolução de 1817. “Um deles, provavelmente feito por um burocrata do Reino, é composto por 80 itens e tenta explicar porque os pernambucanos se rebelaram.

“O conselheiro político responsabiliza a Companhia do Comércio de Pernambuco e da Paraíba pelo revolta, por ter exercido o monopólio de forma gananciosa e não ter cumprido um papel importante junto ao comércio local e também junto aos proprietários”, comenta a professora.

O Projeto Resgate de Documentação Histórica Barão do Rio Branco é liderado pelo Ministério da Cultura, com apoio de órgãos públicos e privados. Pesquisadores de todo o País puderam ler, organizar, microfilmar e digitalizar mais de 300 mil documentos – três milhões de páginas manuscritas sobre os aspectos da vida pública e pessoal dos habitantes da colônia do século 17 ao 19.

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Jornal do Commercio
Recife - 20.05.2001
Domingo