JC OnLine - Editoria Cidades
LG_jc.gif (3670 bytes)

PESQUISA II
Arquivos mostram que o povo pernambucano sabia pressionar o rei

O resgate de documentos no Arquivo Histórico Ultramarino português joga por terra o conceito de absolutismo atribuído aos monarcas e revela que o povo pernambucano dizia o que pensava, reclamava e fazia suas reivindicações. Direto ao rei, diga-se de passagem.

“Isso prova que a sociedade se expressava, mesmo com as dificuldades de ser uma colônia. As petições dirigidas ao rei mostram que havia brechas para o povo chegar às autoridades maiores, sem passar pelas menores”, diz a coordenadora acadêmica do Projeto Resgate em Pernambuco, historiadora Socorro Ferraz.

Há um documento do rei transferindo o burocrata Serafim de Souza Ferraz da Índia para Pernambuco e ele responde dizendo que só aceitaria a transferência se pudesse trazer a família. “A idéia de absolutismo não é verdade, o rei tinha limites.”

A maioria das petições pedia intervenção da Corte em questões de justiça. Todos tinham resposta e eram transformados em processos. “O Conselho Ultramarino dava o parecer e o rei tomava a decisão”, explica Socorro Ferraz. Essa documentação do Conselho Ultramarino se constituiu, séculos depois, nos fundos do Arquivo Histórico Ultramarino.

São documentos administrativos que traduzem as relações econômicas, políticas e sociais entre o Brasil colônia e Portugal Metrópole entre 1548 e 1821. No caso de Pernambuco, os manuscritos retratam o comércio do Pau-Brasil e do açúcar, as necessidades da população, registro de importações e exportações, nomes de navios e comandantes, passaportes de quem entrava e saía da capitania.

A pesquisa é feita com universidades porque é necessário o acompanhamento de um paleógrafo para entender as escritas seiscentistas, setecentistas e as letras processadas. Participaram os paleógrafos Virgínia Almoedo e Vera Acioly (UFPE), Hildo Leal da Rosa (Arquivo Público Estadual), Aneide Santana e Alexandre Alves (Arquivo Público de Olinda), Maria Leda Alves, Erica Carlos e Aparecida Lopes (mestrandas em História da UFPE). Eles leram os documentos e fizeram uma organização cronológica e processual.

___________________________________


Jornal do Commercio
Recife - 20.05.2001
Domingo