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A muriçoca será o terror do apagão Minha maior preocupação com os apagões (bem que poderiam ter descolado um nomezinho mais jeitoso para a desgraça) não é com assalto, com a escuridão, ou que se perca a comida no refrigerador. Aliás, o único gênero de primeira necessidade que acumulo na geladeira é o precioso líquido que passarinho não bebe, e esse aí não tem prazo de validade. Cá pra nós, por mim, o apagão deveria ter entrado em voga mesmo com energia farta, e aos domingos. Por que logo nesse dia santificado ao descanso? Interrompe-me a senhora. Ora, no domingo o que menos se faz é descansar, por causa dos vizinhos. Eles, mal acordam, danam-se a botar discos de pagode. Vêem televisão à tarde. E brigam à noite. Tudo a todo volume. Sem energia, talvez fossem fazer barulho em outra freguesia, ir prum jogo de bola, pegar uma praia etc. Convenhamos que seria uma boa se rolasse um apagãozinho no instante em que Paulo Ricardo canta Imagine na novela. Aliás, poderia faltar energia durante a novela inteira, um bregueço tão sem nexo que Guilherme Fontes é mocinho, e ainda por cima namora com uma moça invicta. Mas cá tô eu a tergiversar. Como pretendia dizer, ao ser tão rudemente interrompido, temo o apagão por causa do inseto hepatófago díptero da família dos culicídios (se é que se pode dizer que um bicho dessa laia é de família), a popular muriçoca, carapanã, pernilongo ou muruçoca (este último tá no Aurélio, mas não conheço um só vivente que chame muriçoca de muruçoca). Uma das razões de eu virar esse incréu que a senhora costuma ler deve-se, em grande parte, às muriçocas. Não consigo entender porque um Ser Onipotente, Onisciente, Onitudo, crie a muriçoca, uma goitana para a qual não se descobriu uma única finalidade, a não ser enlouquecer a mim, a senhora, aos diletíssimos 80 leitores desta coluna, e aos demais infelizes que tiveram o azar de nascer nesse paraíso pra inseto má-conduta. É por essa e outras que invejo os esquimós, que não lidam com uma parelha de problemas que nos afligem sobremaneira. Numa festinha de esquimós, jamais se escutará alguém gritar: Pô, e agora, acabou o gelo! Também nunca se verá um esquimó comprando Boa Noite, Sentinela, queimando cocô de boi, com o intuito de espantar muruçoca. Cá tornei a tergiversar, voltemos ao assunto. A senhora sabe que o pernilongo, como grande alma sebosa que é, só dá as caras quando escurece. Se rola um apagão à noite, este País vira faroeste caboclo de uma vez por todas. Deixe do seu vexame, que eu explico meu raciocínio. Sem energia elétrica, vamos sentir um calor da bobônica do rato. Calor aquece corpos humanos, os infames dos mosquitos são atraídos pelo calor emanado de corpos suados, logo, seremos picados até o Sol raiar. E picados acordadinhos da silva, que não acredito que se possa dormir sendo trucidado por um mau caráter de um carapanã. Sem dormir, ninguém ignora, as pessoas ficam irritadiças. De forma que um simples esbarrão numa esquina pode resultar em mãozada no pé do escutador, facada nos fatos, ou balaço no meio da testa. Então, já que o Governo tá afirmando que irá mesmo apagar o candeeiro e derramar o gás, deviam as autoridades competentes (modo de dizer, minha senhora) tentar dar um sumiço nas muriçocas. Que tal introduzir entre as morrinhas um mosquito mutante, de hábitos diurnos, que contamine as demais, fazendo com que as condenadas passem a dormir à noite como todo animal decente? |
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