Nas simulações, o consumidor que gasta entre 200 KWh e 500 KWh por mês, se economizar 20% de energia vai pagar a mesma coisa pela conta. Racionamento deve provocar alta de preços de alimentos e brinquedos
Com base nas tabelas divulgadas sexta-feira pelo Governo ao anunciar mais detalhes do Programa Emergencial de Redução do Consumo de Energia Elétrica, quem consome até 500 kWh por mês poderá continuar pagando o mesmo valor nas contas de energia mesmo com a sobretaxa de 50%, desde que consiga cumprir o corte de 20% no consumo. Acima desse limite de 500 kWh, no entanto, quando a sobretaxa pula para 200%, não há escapatória: as contas ficarão mais altas, mesmo se o consumidor economizar os 20%.
Pelas simulações, quem hoje consome 500 kWh por mês tem uma conta de R$ 80, no Estado de Pernambuco, pela tarifa média da Celpe (R$ 0,16 por quiloWatt hora, KWh). Com a sobretaxa, a conta desse consumidor pularia para R$ 104, mas com o corte de 20% no consumo, o valor final retornaria para os R$ 80 iniciais. Ou seja, o consumidor vai gastar menos energia e vai pagar a mesma coisa.
Já quem consome 1 mil KWh por mês tem uma conta hoje de R$ 160. Esse valor subiria para R$ 344 com a sobretaxa de 50% (entre 201 e 500 KWh) e de 200% (acima de 500 KWh) e, mesmo cumprindo a determinação do Governo de cortar 20% do gasto com energia, o desembolso do consumidor teria de ser de R$ 224. Só economizando mais do que 20% esse consumidor voltaria a pagar o mesmo que pagava antes pela energia.
Resumindo: quanto mais alto o consumo de energia, maior terá que ser a economia para que o bolso não seja afetado. Para quem consome acima de 500 KWh, somente um corte da ordem de 25% não faria a conta aumentar.
PREÇOS DOS ALIMENTOS – O País corre o risco de passar por um período de desabastecimento caso o Governo não revise as medidas de limite de consumo de energia ao setor de alimentos. A direção da Associação Brasileira das Indústrias de Alimentos (Abia) irá a Brasília amanhã para tentar mudar a situação do setor no plano de racionamento anunciado sexta-feira.
O problema é que não há possibilidade de armazenar nos frigoríficos da região Sudeste as aves e carnes congeladas que foram trazidas de Estados como Paraná e Santa Catarina.
“Como algumas empresas devem fazer um apagão obrigatório, não teremos onde guardar o produto e tudo vai ser perdido”, disse Edmundo Klotz, presidente da associação. “A população pode esperar pelo desabastecimento, com falta da carne e do frango, e também pode aguardar pelo aumento de preço”, afirmou Klotz.
Nos supermercados, não há possibilidade de manter os produtos industrializados. Isso porque apenas 10% dos supermercados localizados no Sudeste têm geradores, pelas contas da Abia.
Outros empresários já acreditam que o plano tem efeitos benéficos. Segundo Roberto Teixeira da Costa, vice-presidente do Banco Sul América, o Brasil é incompetente para prevenir crises, mas demonstra habilidade ao administrá-las.
Para ele, esse é um dos casos. As medidas tomadas sexta-feira são duras. “Para algumas pessoas haverá situações difíceis de contornar, mas acho que o bom senso vai prevalecer”, afirmou Costa. E acrescenta: “Pela reação da sociedade, já houve uma economia sensível”, disse.
No varejo, a reação foi cautelosa. “O que se propõe são medidas sérias para reduzir o consumo e distribuir igualmente os sacrifícios”, afirmou Abram Szajman, presidente da Federação do Comércio do Estado de São Paulo.
Mas Szajman ressaltou que, na verdade, o que faltou foram alternativas a um plano melhor. “Não resta outra opção a não ser apoiar a redução de 20% no consumo”, afirmou o presidente da federação.
BRINQUEDOS – Os preços dos brinquedos devem subir entre 8% e 10%, anunciou ontem o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Brinquedos (Abrinq), Synésio Batista da Costa. Uma das principais razões para o reajuste de preços é o aumento dos custos provocados pela reorganização da produção em razão dos racionamentos de eletricidade. “O repasse de custos para o preço final dos brinquedos deverá acontecer entre agosto e setembro”, afirmou o empresário. O setor de brinquedos depende, hoje, de 92% de eletricidade proveniente do sistema.
O presidente da Abrinq garantiu que o setor não vai deixar de cumprir seus contratos de exportação, que já somam US$ 30 milhões neste ano até agora, devendo chegar a US$ 45 milhões até o fim do ano.
Synésio Batista admitiu que pode até faltar brinquedo no País, mas as exportações serão realizadas. Estamos conquistando novos clientes, e não vamos perdê-los, ressaltou o empresário. Para se ter uma idéia do crescimento das vendas externas de brinquedo, no ano passado o setor exportou US$ 18 milhões. Para este ano, a projeção é de US$ 45 milhões.
Batista da Costa explicou que o setor está evitando qualquer tipo de catrastofismo. A estratégia para reduzir os prejuízos com o racionamento de eletricidade será transferir a produção de regiões onde falta energia para áreas onde não haverá racionamento, como o norte do País. De qualquer forma, essa adequação implica custos, na avaliação do empresário.
Batista Costa afirmou que o setor está propondo aos sindicatos de trabalhadores uma redução de 60% para 30% (conforme a lei) no adicional noturno. Dessa forma, as fábricas poderão adotar um terceiro turno de trabalho pela madrugada.