Em pleno Século 21, 20% das propriedades rurais pernambucanas não desfrutam das vantagens da energia elétrica. No momento em que o Brasil vive a pior crise energética da História, com o risco de apagões que nos remetem ao Século 19, as histórias da família Ferreira mostram o que é a vida sem luz
por JAMILDO MELO
Por volta das 17h, as cigarras começam a cantar, em um alarido quase ensurdecedor. No interior, o canto das cigarras é o anúncio do fim de mais um dia e o início da noite. A menina Iracquiana, de 11 anos, e sua irmã Maria José, voltando da escola, apressam o passo, subindo a ladeira de barro e pedra que leva a sua casa, localizada no alto de um morro. Em pouco menos de uma hora, o escuro terá tomado conta de tudo na casa do agricultor Dorino Severino Ferreira, morador da área rural de Vitória de Santo Antão, a 60 quilômetros do Recife. Suprema ironia, a luz ainda não se fez no Sítio Espírito Santo. “A luz da gente aqui é a lua, doutor. Dá para ver tudo no terreiro. Pena que ela só liga lá para meia-noite, quando a gente já tá dormindo”, descreve. “Quando não tem lua, é o ‘tune’ (túnel, escuridão completa).
Dona Severina Lúcia da Silva, esposa de seu Dorino, prepara o jantar à luz de velas para o marido, as duas filhas e outros três filhos homens que se arrumam para ir para a escola, depois de enfrentar meia hora de ladeira acidentada em pleno breu.
Na casa de seu Dorino, a penumbra não guarda resquício algum de romantismo. O clima é dominado pela pressa. A família tenta aproveitar o restinho de luz do crepúsculo. “Fecha a porta da cozinha, menino, senão apaga o candeeiro”, reclama o patriarca para o filho Mi, que havia voltado do banho de cacimba e deixado a porta aberta. Sem energia, chuveiro elétrico aqui é um luxo impossível. Com sorte, regalia de poucos. Seu irmão Val, na qualidade de caseiro de uma chácara nas proximidades, confessa, com visível orgulho, que vez por outra comete tais excentricidades.
A falta de energia, aliás, é inimiga de qualquer vaidade. Falar em roupa engomada por aqui equivale a contar uma boa piada de salão. Arranca gargalhadas. “Tem isso não. A gente lava, dobra e guarda”, explica a dona de casa. “Mas não reclamo da vida não. Quando eu era pequena, lá em Águas Compridas, fazia sandália de capa de bananeira. Hoje tenho roupa, sapato e até relógio.” Sem poder ligar uma geladeira na cozinha, a dona-de-casa faz malabarismo para conservar os alimentos. ”Só compramos carne de charque, que dura vários dias”.
Sem um mísero bico de luz, a família acende dois candeeiros na casa. Um fica na sala. O outro na cozinha. Os dois não têm descanso. Passeiam a noite toda pelos vãos da casa, como duas almas penadas. “Sem eles, a ponta do dedo é nossa vista”, diz Seu Dorino.
TABOADA NO ESCURO – Forçar a vista, no caso, é um esforço adicional que a filha caçula Iracquiana é obrigada a fazer para se educar. Suas tarefas escolares, não raras vezes, são feitas sob o intenso calor e cheiro forte do querosene queimado pelos candeeiros. “Custumei”, explica a garotinha, que neste momento está aprendendo a taboada. O pai, analfabeto, mesmo depois de ter frequentado a escola por cinco anos, admira-se com a força de vontade da filha, de nome incomum. A mãe dá uma pista do seu espírito batalhador. “Ela foi batizada de Iracquiana porque nasceu na época em que o Irã e Iraque entraram em guerra”, revela.
Falar em guerra, numa casa sem energia, quando a noite cai, o pior pesadelo é o ataque aéreo das muriçocas. “Aqui a gente só dorme com mosquiteiro. Um novo custa R$23, mas eu dava até R$30 com gosto. Não é caro não. Ruim é a peste da muriçoca zunindo no ouvido e mordendo a noite toda”, conta Seu Dorino, cuja felicidade de dormir no ar-condicionado, lamentavelmente, só ocorre quando ele é internado no hospital de Vitória de Santo Antão por conta do coração.
Além do desconforto noturno, a ausência de energia limita outros hábitos da família. A diversão, por exemplo, fica prejudicada. Novela, depois do jantar, só em sonho. A partir das sete horas, a família já vai para cama. No máximo nove horas, todos estão dormindo. “Nossa vida é comer e dormir. Não faltou alimento, tudo bem”, resigna-se Seu Dorino, pai de nove filhos somente com dona Severina, sendo seis homens e três mulheres. “A gente não conversa muito não. As meninas vivem é cantando”, completa a mãe, explicando a vantagem de não ter TV na sala.
Essas coisas da vida nas grandes cidades não são sequer cogitadas. Qualquer visitante da cidade, logo sente-se incomodado num lugar igual, por contratempos nem tão grandes. O sinal do celular, por exemplo, chega até o sítio. A casa fica localizada no alto de uma montanha. Mas, sem energia, a bateria vai embora e não volta mais.
CHEIRO DE QUEROSENE – Sem poder ligar a TV, seu Dorino se informa e se diverte pelo rádio. O minúsculo aparelhinho, da sugestiva marca Paraguaio, é patrimônio particular e inviolável do dono da casa, quase um ícone sagrado. Pelo rádio o agricultor já tomou até conhecimento do apagão. “Já soube do apagão, sim. Vai ser bom é para os marginais, Nossa Senhora ! Uma cidade sem luz é muito feio. Como é que pode?”, pergunta o agricultor aposentado. “No rádio, eu gosto mesmo é de escutar os jogos do Sport e Santa. Adoro jogo”, conta seu Dorino, um sofrido torcedor do time local Vitória, cuja performance não anda fazendo juz ao próprio nome no campeonato pernambucano.
O custo da extravagância é pequeno. Seu Dorino conta que uma pilha, chamada por ele de ‘elemento’, custa R$ 1,50 e dura até um mês. Vivendo de um benefício de R$ 180, ele chega a gastar cerca de R$ 10 com a ‘conta da luz’ por mês. “Tem que gastar mesmo. Não tem como economizar. Quando não tem querosene, agente queima vela.” O maço de vela custa R$ 0,50. O litro de querosene varia de R$ 0,50 a R$ 1. O mais barato vem misturado com óleo, dura mais tempo, mas em compensação exala um odor tão forte que sugere a existência de um cano de escape de automóvel ligado em plena sala de estar.
Se há uma área onde a falta de energia elétrica não é sentida é o quesito segurança. O cão Preto, o vira-lata da família, dá plena conta do recado.
No entanto, sem nunca ter morado em casa com energia, aos 56 anos de idade, o agricultor ainda tem esperanças de receber uma conta de luz da Celpe para pagar. Há um mês, o filho Mi já instalou no terraço da casa um medidor de energia. O equipamento foi doado pelo parente do patrão do outro filho, Val. O amigo também prometeu pedir à Companhia Energética de Pernambuco (Celpe) para fazer a ligação, depois que o agricultor obteve a autorização de outro vizinho para puxar energia levada até a sua propriedade. A posteação da Celpe, por ironia, chega até 500 metros de seu imóvel. “Agora com essa história de apagão não sei se vão botar mesmo.”
Caso venha a contar com energia em casa, o sonho do agricultor é comprar uma TV. “Vou poder ver os jogos.” Já outros utensílios domésticos como um refrigerador não são sequer cogitados. “Não posso comprar, não. Falta o ouro (dinheiro). Se um dia Deus melhorar, a gente compra”. No seu estado de sítio, Seu Dorino é feliz e não sabe.