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Plantas e água na caatinga

O Instituto do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (Ibama) acaba de lançar o seu Plano de Manejo Florestal. Entre suas regras, consta a proibição do uso do fogo e de agrotóxicos, além de um capítulo sobre manejo da vegetação, na caatinga nordestina.

A degradação ambiental está intimamente ligada à dificuldade para obtenção de água, no Nordeste. Ainda que a seca periódica seja secular, anterior à própria colonização da área sertaneja, também é verdade que há séculos se usa indiscriminadamente a madeira da caatinga para fazer cercas e produzir carvão vegetal, fabricar tijolos, alimentar fornalhas de padarias e casas de farinha, além do uso doméstico da lenha. E os riachos das caatingas levam cada vez menos água para os rios que formam as grandes barragens.

É bastante elevada a taxa de degradação e – até mesmo de erradicação – da vegetação natural, em algumas áreas, o que agrava consideravelmente o fenômeno da desertificação no Polígono das Secas. E este inclui 900 mil quilômetros quadrados do território brasileiro.

Em 1998, a Convenção da Desertificação, que reuniu na Fundação Joaquim Nabuco, no Recife, representantes de 20 países africanos e 10 da América Latina e do Caribe, admitiu que cerca de 20.364.900 hectares daquelas terras estavam comprometidos em vários níveis pela degradação ambiental. O documento resultante do encontro enumera as ações de prevenção, controle e recuperação necessários às áreas atingidas pelo fenômeno, que está diretamente associado a atividades humanas. Essas atividades, a partir de agora, devem obedecer às regras estabelecidas pelo Ibama para impedir o agravamento constante da situação. Não será uma tarefa fácil.

No Norte do país, foi anunciado há poucos dias, existe uma exceção à regra da destruição da vegetação natural do país. Com 97% de sua cobertura florestal intacta, o Estado do Amapá comemora o sucesso de uma política de preservação, implantada em 1995. Para estabelecer um contraste com aquele Estado, nem é preciso falar do restante da floresta amazônica, tão agredida pelo homem. Preferimos nos fixar no exemplo da antiga Mata Atlântica, mais perto de nós. Situada ao tempo da descoberta numa grande extensão paralela à costa brasileira, desde o Rio Grande do Norte até o Rio Grande do Sul, de sua área original de 1 milhão de quilômetros quadrados só restam 7%.

É bom saber que os técnicos em recursos naturais estão valorizando a nossa caatinga, uma área de biodiversidade e paisagem únicas no mundo. A sua preservação implicará em benefícios sociais consideráveis, além de reduzir as possibilidades da instauração do processo de desertificação.

O fenômeno não ocorre apenas no Nordeste do Brasil. Um terço das terras emersas do planeta está diretamente sujeito a esse processo destruidor de plantações e, em conseqüência, de oferta de água de superfície. Há registro de uma grande seca dos anos de 1930 e 1931, no meio-oeste americano, que levou à ruína os agricultores daquela região. Pressionados pela recessão do pós Primeira Guerra Mundial, tinham eles passado a arar mais e mais terras para aumentar o cultivo de cereais. Como muitas delas eram impróprias para esse tipo de cultivo, o fenômeno natural da seca tornou-se devastador. Em 1934, uma violenta tempestade transformou o que havia sido um dia um solo arável em uma área que se tornou conhecida como a “Grande Bacia de Pó”.


Jornal do Commercio
Recife - 20.05.2001
Domingo