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A porção humana que tem cada diabo, ou vice-versa

por JANAÍNA LIMA

O inferno é uma escuridão só. Pouquíssima luz, espaços vazios e criaturas desiludidas em busca de um rumo a seguir. É isso o que propõe o espetáculo Os Desencantos do Diabo, criação de Moncho Rodriguez, a partir do texto de Ronaldo Britto. A peça encerra a curta temporada no Apolo.

Nesse mundo sem luz, um grupo de capetas vive conflitos extremos, que envolvem decisões difíceis como, por exemplo, até que ponto a misericórdia não é tolerável? Diabos têm mesmo que fazer tanta maldade, como o faz o impiedoso personagem Trasco, que leva dois amigos à morte?

Afinal, Mefi (o protagonista) não é assim tão cruel. Passou seus cinco mil anos estudando as ciências esotéricas, sem ocupar-se dos prazeres ou das danações. É um diabo bom, se assim podemos dizer. Margot também é uma diaba com instintos bons. O maior desejo da moça é amar uma vez na vida.

Mas Os Desencantos... não é só um atípico ‘Romeu e Julieta’. Nessa tragicomédia –que, na verdade, não consegue desprender-se da atmosfera densa proposta pelo diretor, e quase esconde o teor cômico do texto– estão elementos que identificam os dramas do homem do início do século 21. O desapego à vida espiritual, o medo da solidão, o arrependimento por não ter feito tudo o queria e até a incapacidade de sonhar, de se permitir uma última loucura.

Como Margot, que perdeu o direito à eternidade pela aventura de buscar o amor. Coisa que os homens fazem cada vez menos. No fundo, a verdade é mesmo a frase dita por Capiroto: “O Diabo agora está dentro de todo mundo”.

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Jornal do Commercio
Recife - 18.05.2001
Sexta-feira