por FRED FIGUEIROA
Rivalidade só se for dentro das quatro linhas. Para provar isso, o Jornal do Commercio organizou o encontro de dois eternos ídolos do futebol pernambucano – o ex-lateral-direito Betão, consagrado nacionalmente com a camisa do Sport e o ex-ponta-direita Marlon, que brilhou no Santa Cruz, antes de encantar a Europa.
Os dois se encontraram sexta-feira, no Arruda, palco do clássico desta tarde. Depois de um forte abraço, começaram a matar a saudade dos velhos tempos e a reviver momentos históricos de Sport e Santa Cruz, falando de jogos que dificilmente a torcida esquecerá.
Porém, os tricolores que compareceram ao Arruda não mostraram um mínimo de civilidade e impediram o encontro, descarregando diversos insultos sobre o ex-lateral rubro-negro, que, diga-se de passagem, já vestiu a camisa coral, em 92. Sem esconder a frustração, Betão e Marlon foram para o campo do quartel do Derby, onde enfim puderam conversar em paz. “Já estive na Ilha várias vezes e nunca me trataram assim” confessou Marlon, envergonhado com a atitude dos torcedores do Santa.
Esquecido o incidente, o ex-ponta saiu na frente e relembrou o empate de 0x0, que deu o título de 86 ao Tricolor. Naquela data, Betão também estava em campo e até hoje lamenta o resultado. No ano seguinte, um novo 0x0 deu o bi ao Santa, mas Marlon já havia se transferido para o futebol português. “Foi uma partida sufocante, a gente tinha que vencer e pressionou os 90 minutos, mas não conseguiu o gol” conta o ex-lateral.
Mas o ano de 87 também traz boas recordações para Betão. Afinal, foi quando o Sport sagrou-se campeão brasileiro. A alegria continuou no ano seguinte. “Lembro que em 88, sob o comando de Jair Picerni, goleamos o Santa por 4x0” alfineta o rubro-negro.
Betão e Marlon marcaram época. O primeiro chegou à seleção brasileira principal, em 82, e o segundo esteve na seleção de novos, em 86, e em 92 foi campeão português pelo Boavista. Na Europa, defendeu também o Sportting de Lisboa e o Valladolid (ESP), e encerrou a carreira nos Estados Unidos, pela equipe do Fênix.
Hoje, Marlon, com 37 anos, tornou-se empresário de jogadores. Betão, um ano mais velho, trabalha com escolinhas de futebol. Na hora da diversão, não dispensam uma boa pelada, onde muitas vezes atuam juntos, formando uma dupla que ninguém teve o prazer de ver jogar profissionalmente.
Dia de clássico era dia de um ‘friozinho na barriga’, segundo Betão. “A tensão só passa quando o juiz apita o início do jogo” atesta Marlon. Para o duelo desta tarde, eles não arriscam palpites. “Só quem já esteve lá dentro sabe o que é um clássico”, diz Betão.
Antes da despedida, os dois amigos fizeram questão de ressaltar que nunca brigaram. “Lutamos muito dentro das quatro linhas, mas sempre houve respeito de ambas as partes, dentro e fora de campo” garante Marlon. Nada melhor do que este exemplo de rivalidade saudável para que os torcedores aprendam um sentimento que parece esquecido no futebol: o respeito.