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COMPORTAMENTO II Amigos são a nova família Foi justamente um sentimento forte de amizade pela brasileira Vilma Oakim que levou o filósofo Jacques Derrida e o psicanalista René Major ao workshop carioca. Empresária de turismo, Vilma levou 200 brasileiros ao encontro Estados Gerais da Psicanálise, no ano passado, em Paris, para surpresa dos organizadores, entre eles Major, antigo idealizador da reunião. Vilma tentava convencê-los a prosseguir com os debates no Brasil quando subitamente morreu e os dois decidiram realizar postumamente o seu desejo. A psicanalista Helena Besserman Vianna, uma das coordenadoras do workshop, explica que Derrida relaciona hospitalidade e amizade com democracia e política e ensina que, para nos relacionarmos com os outros, devemos estar em paz conosco, com nossos conflitos internos. Se você estiver em guerra consigo, poderá tornar-se alérgico aos outros. Este será o âmago da discussão sobre amizade com Jacques Derrida e René Major. Eu concordo que o homem precisa de encontro amistoso com suas próprias contradições para poder respeitar, amar e ter amizade fraterna com seu semelhante, diz Helena. SUPERIOR Já o casseta Hélio de La Peña comenta que, na sua opinião, o mundo se divide entre pessoas que têm amigos e pessoas que não conseguem ter amigo algum, embora ele não pretenda explicar, como Derrida, as origens inconscientes de tal divisão. Nós, os cassetas, pertencemos ao grupo das pessoas que têm amigos. Para nós, a amizade é uma relação simples, na qual você pode contar com o outro em qualquer circunstância, partilhar de confiança e alegria. Mas tem gente que não consegue ter amigo em época nenhuma da vida. Não sei o motivo. Sei que existem essas pessoas, diz. Para o psicanalista Nahman Armony, professor de pós-graduação de psicologia da Universidade Santa Úrsula, a feroz competição induzida pelo capitalismo tardio em que vivemos está acabando com os laços de amizade. A amizade encontra hoje pouco espaço para vicejar e tende a se recolher ao ambiente restrito do lar, da família, onde os laços de sangue conseguem ainda opor um dique à impiedade do consumismo compulsivo e da luta pela ascensão social. Mas até nas famílias e entre parentes vivenciamos hoje situações dilacerantes deste vínculo, observa. Armony lembra que uma rede de amizades é uma sustentação fundamental à vida. O sentimento de comunidade, de partilhamento afetivo e de solidariedade aumentam a segurança, o bem-estar, pacificando receios básicos do ser humano como solidão, desamparo e ameaças à integridade física e psicológica. Para o ator Luís Salem, amigo há mais de 20 anos do ator Aloísio de Abreu, o compositor Caetano Veloso tem razão ao afirmar numa canção que a amizade é superior ao amor: E quem há de negar que ela lhe é superior?, desafia Caetano na letra de Língua. Os amores acabam, mas a amizade é eterna. Quando acaba a paixão, a gente quer matar o outro ou nunca mais vê-lo. O amigo está sempre ao nosso lado, diz Salem. Aloísio de Abreu diz que, amigos como Salem, são raríssimos. Ao longo da nossa vida, Deus vai peneirando nossas relações. Umas vão, outras ficam. Eu e Salem passamos no teste da peneira divina. O legal da nossa amizade é que adoramos ver e aplaudir o sucesso do outro. Isso é muito difícil. SUBSTITUTO Para a psicanalista Thaís Sá Oliveira, a sociedade competitiva e a busca pelo sucesso fazem com que a amizade se torne cada vez mais utilitarista. O poder e a fama fazem com que as pessoas vivam ilusões de amizades que se esvaem tão logo elas se tornam inúteis. Isso não satisfaz. Para ser amigo, há que ser tolerante e silencioso, rude e corajoso para dizer o que o outro precisa ouvir e ninguém diz. É preciso saber dar e receber. Para compensar esse vazio afetivo gerado pela vida das grandes cidades, nas quais o estresse leva as pessoas ao isolamento para recarregar energias, as pessoas, segundo Thaís, buscam no analista o substituto de um amigo. A figura do psicanalista nesses tempos tem o efeito de levar essas pessoas a dispensar a intimidade de parentes e amigos e concentrá-la no analista.(M.C.) |
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