LG_jc.gif (3670 bytes)

COMPORTAMENTO
MICRO, TÔ FORA!!

Alheios ao mundo digital, os chamados tecnófobos resistem ao uso de micro e Internet

por MONA LISA DOURADO
mldourado@jc.com.br

Num mundo dominado por bits e chips, é de se imaginar que invenções como o computador e a Internet já estejam tão incorporadas à vida moderna que não encontrem mais resistência. Puro engano. Contrariando as suposições otimistas, muitas pessoas não ficam nada deslumbradas com a propagada ampliação de horizontes que a Rede proporciona. Manipular um software de edição de imagem, desvendar as ‘manhas’ de um novo game, fazer um download ou passar horas ‘papeando’ num chat definitivamente não é com elas.

Às vezes acusados de tecnófobos, esses ‘desertores’ até reconhecem a importância das novas tecnologias para a inserção no dito mundo globalizado, mas ainda assim as encaram com desconfiança.

Aos 23 anos, idade em que a maioria dos jovens está ávida por explorar o ciberespaço, o estudante Sebastião Ferraz Filho diz não nutrir grande interesse pelo micro, pela Rede ou por aparatos tecnológicos em geral. Tanto que não tem computador, não usa celular, nunca viu um aparelho de DVD e sequer possui relógio. Apesar de ser desenhista, ele não tem o menor conhecimento sobre programas como Corel Draw e diz gostar mesmo do velho e bom lápis, “de preferência aqueles de madeira”.

Para completar, é adepto da teoria de que a informalidade e a agilidade da comunicação eletrônica nunca alcançarão o impacto que ainda causa uma boa carta manuscrita. “É mais interessante escrever de próprio punho. Não me entusiasma ficar checando e-mail. É possível que, por questões profissionais, mesmo contra o meu estilo tenha que aprender a lidar com as máquinas. Enquanto puder, no entanto, continuo sem me envolver”, explica.

Se o computador, a Web e o e-mail já deixaram de ser supérfulos dentro de uma casa, no contexto de uma empresa, então, é inimaginável que os administradores não tenham domínio sobre a tecnologia. Certo? Nem tanto. Proprietário de uma firma de distribuição de livros, José Alventino Lima, 59, é a exceção ao que deveria ser a regra.

Sem intimidade nenhuma com o micro, José Alventino se limita a dar ordens para que os funcionários operem as máquinas da empresa, que tem todos os processos de atendimento e gerenciamento informatizados. “Não consigo usar esses equipamentos. Acho estranho e difícil. Já pensei em aprender, mas fico sempre adiando”, afirma o administrador, que atribui sua dificuldade de adaptação à idade.

De acordo com o presidente do Iteci, Merval Jurema, que lida com educação em Informática, a maioria das pessoas que apresenta resistência às novas tecnologias pertence a faixas etárias acima dos 35 anos, e não acha que a incorporação ao micro e à Internet é natural. Portanto, tem medo de que os novos aparatos mudem a forma como estão acostumados a levar a vida. “Ninguém gosta do que não conhece e quando há algum problema inicial, aí é que a distância em relação aos equipamentos tende a aumentar”, avalia.

Por outro lado, segundo observa Merval, apesar da insegurança, os mais idosos expressam vontade de superar as limitações, enquanto os jovens, quando não gostam da tecnologia, simplesmente não sentem qualquer motivação.

É o caso do policial Manoel do Nascimento Renã, 32, para quem o computador não faz a mínima falta, o que justifica a sua ausência de curiosidade em desvendá-lo. “Só tenho micro em casa por causa da minha esposa. Prefiro as relações pessoais do que com as máquinas”, resume.

___________________________________


Jornal do Commercio
Recife - 16.05.2001
Quarta-feira