Em cinco meses, a combinação política do governador Jarbas Vasconcelos (PMDB) com o rival João Paulo (PT), prefeito do Recife, já deu mais resultados do que com o aliado Roberto Magalhães (PFL)
por ALBERTO LIMA
Seja pela Ponte do Limoeiro, Ponte Buarque de Macedo ou atravessando o rio, não adianta. As medidas enganam e fazer o percurso entre a Praça da República, onde funciona a sede do Governo do Estado, e o Cais do Apolo, onde fica a Prefeitura do Recife, será sempre um desafio maior do que aparenta ser. Isso porque a distância que separa o Palácio das Princesas do Palácio Capibaribe não se resume apenas a uma questão de espaço. Mas também a uma questão política. No entanto, mesmo adversários, os dois reinos parecem não estar em guerra e, mais que isso, andam até se dando muito bem. Tudo graças à nova ‘ponte’ construída por alguns nobres das duas Cortes, cujas articulações têm dado mais resultados do que no tempo em que o Estado tinha a PCR como aliada.
A ira pela derrota eleitoral dentro do seu principal reduto levou o governador Jarbas Vasconcelos (PMDB) a se armar contra João Paulo (PT), prefeito do Recife, logo no começo da gestão petista, em janeiro passado. Inspirado em Gandhi, João Paulo decidiu não revidar aos ataques e insistia em ter Jarbas como aliado administrativo. Restou ao governador rever a própria postura para não ficar com o papel de vilão da história e ser condenado pela cidade que o elegeu por duas vezes prefeito. Ex-integrante da esquerda e cercado de fiéis aliados que militaram no mesmo campo do PT, Jarbas foi se adaptando à idéia e, aos poucos, cedendo às investidas do petista para restabelecer os vínculos entre a Prefeitura e o Governo do Estado.
O resultado é que, em cinco meses de administração petista no Recife, os convênios entre os dois Palácios são em maior número e movimentam mais volume de recursos do que nos cinco primeiros meses - janeiro a maio de 99 - em que Jarbas esteve junto a Roberto Magalhães (PFL), seu antigo aliado na PCR. “O governador não tem nenhum problema de estabelecer convênios e construir entendimentos com o prefeito João Paulo nem com qualquer prefeito da oposição. Nós somos orientados por ele a dar seguimento a tudo o que seja de importância para o Recife com a mesma disposição com que tínhamos na gestão anterior”, esclarece Lúcia Pontes, chefe de gabinete de Jarbas e um dos elos de ligação entre as duas administrações.
“Estamos brigando nos Ministérios por recursos, pelos projetos, da mesma forma como fazíamos com a gestão passada. A postura do governador Jarbas é de construir parcerias que beneficiem a população porque ele tem o entendimento de que as diferenças entre partidos contrários não podem atrapalhar a cidade. Tanto que a coordenação do processo de articulação com todos os municípios é feita diretamente pelo governador, para evitar interferências”, esclarece Lúcia.
FORA, XIITAS - De fato, a decisão política de Jarbas de tanger o xiitismo no Governo do Estado, dando um cala boca nos radicais da administração, foi de frustrar quem esperava que ele se vestisse para a guerra contra a oposição. “Não vamos permitir, prefeito, que eventuais diferenças venham atrapalhar o oferecimento dos serviços. Não vamos permitir que presidentes de empresas e técnicos se desentendam e prejudiquem a população. Não é possível que, embaixo, queiram ser mais real do que o rei”, ressaltou Jarbas, no último dia 02, ao assinar com a PCR um convênio de R$ 13,5 milhões para a conclusão do programa de saneamento nos bairros de Mustardinha e Mangueira.
“Tudo tem sido muito tranqüilo. Estamos em céu de brigadeiro. Na minha secretaria mesmo, eu opero programas, não opero votos. E o governador advertiu o prefeito: ‘segure os seus xiitas, que eu seguro os meus’. Como eu não sou xiita, não preciso ser segurado. Jarbas é muito cioso com o Recife e se preocupa com a cidade como se ainda fosse prefeito dela. Por isso, nunca vai descriminá-la”, assegura José Arlindo, secretário estadual de Planejamento e Desenvolvimento Social e outro elo de ligação com a PCR.