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PARTIDOS II
“Apoiamos FHC e indicamos ministros. Não vamos, agora, chutar o traseiro do Governo”

Às vésperas de ser reconduzido para o que será o seu sexto mandato consecutivo, o presidente regional do PMDB, Dorany Sampaio, insiste em afirmar que o partido está unido, apesar de admitir as divergências internas e reconhecer que há insatisfações de correligionários, que acusam a direção partidária de não dialogar com as bases. Sintonizado com a opinião do governador Jarbas Vasconcelos, líder maior do PMDB em Pernambuco, Dorany reforça a necessidade de manter a aliança com o Governo FHC, mesmo ciente de que os peemedebistas podem herdar o desgaste do presidente, e critica a discussão sobre candidatura própria à Presidência da República. Nesta entrevista ao JC, ele critica os ‘rebeldes’ e condena a discussão antecipada sobre estratégias eleitorais para 2002, mas admite que o partido vem tratando do assunto internamente.

JORNAL DO COMMERCIO – O sr. não tem enfrentado problemas em acumular as funções de presidente do PMDB e de secretário de Governo?

DORANY SAMPAIO – São cargos perfeitamente conciliáveis. Até porque o secretário de Governo não é um executor, é um articulador político. Então, como secretário, sou responsável pela articulação política do Governo, com a consciência de que o Governo tem mais de um partido. E internamente, no PMDB, eu faço a articulação político-partidária.

JC – O PMDB de Pernambuco é contra o lançamento de candidatura própria à Presidência da República. Isso não coloca o partido em situação difícil perante a direção nacional peemedebista?

Dorany – O PMDB fez um acordo para não ter candidato e votar no presidente Fernando Henrique Cardoso. Isso nos garantiu participação no Governo. Estamos cumprindo esse acordo, ajudando a governabilidade. Por isso, não podemos dizer que o Governo é bom para o PMDB indicar ministros e, na eleição, lançar candidato e romper com Fernando Henrique. Ter candidato próprio é uma possibilidade para qualquer partido que integra uma aliança. As circunstâncias podem até possibilitar um candidato do PMDB, e não do PSDB, porque o presidente não pode ser candidato de novo. O que não admito é dizer que vamos trair o presidente porque queremos ter nosso candidato, depois de termos ocupado ministérios e outros cargos. Isso não é ético. Não vamos chutar o traseiro do Governo.

JC – O Governo FHC enfrenta enorme desgaste junto à opinião pública. Não seria melhor o PMDB se distanciar enquanto há tempo, para não sofrer as repercussões desse desgaste nas eleições do próximo ano?

Dorany – Tudo vai depender dos acordos que serão feitos. Hoje está na moda criticar o presidente Fernando Henrique. Mas a gente sabe que ele vem desenvolvendo um grande esforço para que o País melhore, e tem melhorado. Ele tomou medidas amargas e impopulares, mas essenciais ao equilíbrio do País e do seu prestígio internacional. Essas medidas criaram dificuldades para a classe média, que é a mais sacrificada, mas ninguém pode negar que o povão, em geral, teve uma melhoria da qualidade de vida. Os indicadores sociais melhoraram na saúde, na educação. Conteve-se a inflação e se democratizou as relações econômicas.

JC – No Estado, o PMDB cresceu desde a posse de Jarbas Vasconcelos. Mas, na época do Governo Arraes, os peemedebistas criticavam o crescimento do PSB, partido do ex-governador, afirmando que o crescimento não utilizava critérios qualitativos. O PMDB não estaria, agora, correndo o risco de incorrer nas suas próprias críticas, crescendo numericamente pelo fato de estar no poder?

Dorany – Todos têm visto esse festival recente de filiações e trocas de partido, e ninguém viu o PMDB metido nisso. Porque a forma de crescer perante a opinião pública não é necessariamente aumentando as bancadas parlamentares e o número de prefeitos. Podemos crescer nos credenciando com propostas e confiabilidade. Temos a credibilidade do Governo Jarbas, que está fazendo Pernambuco crescer. Isso não é uma falácia. O Estado está um canteiro de obras. Estamos trabalhando, a população está compreendendo, e isso confere prestígio, credibilidade para 2002.

JC – O PMDB foi adversário do PFL durante muitos anos. O sr. foi um dos que combateram os pefelistas. Hoje, os dois partidos defendem calorosamente a manutenção da aliança. Quem mudou, o PMDB ou o PFL?

Dorany – Ambos. Reconhecemos que para mudar o Estado não era necessário apenas uma vitória eleitoral, mas também uma vitória política, de um conjunto de forças que garantisse a governabilidade. Em 86, Arraes teve uma vitória eleitoral sobre José Múcio, mas não uma vitória política. Uma prova disso é que não fez o sucessor, que seria Jarbas. Joaquim Francisco ganhou a eleição para Jarbas em 90, mas não evitou que Arraes voltasse ao Governo em 1994. Para que a vitória seja completa, tem que ter como base um amplo arco de apoio, assegurando a governabilidade e em sintonia com setores da sociedade. No bipartidarismo não havia isso. Era MDB de um lado, Arena do outro. Mas, agora, não há mais razão para as divergências. Com a queda do Muro de Berlim, a extinção da antiga União Soviética e outras mudanças no mundo político, o povo não quer saber de esquerda e direita, mas do binômio probidade e competência. Claro que ninguém renegou seus ideais. E é aí que mantemos as divergências, mas temos muito mais convergências.

JC – Apesar de não ter participado da chapa majoritária no Recife, no ano passado, o PMDB também sentiu o impacto da derrota de Roberto Magalhães (PFL) para João Paulo (PT). Foi difícil assimilar o episódio?

Dorany – Não. O PMDB está bem. Nossos vereadores foram bem votados, tivemos uma boa chapa. A força que o partido tem no Recife é o respeito e a credibilidade do governador, que é a força maior do PMDB. Sua popularidade está inalterada, e esses índices mostram que o PMDB vai bem porque Jarbas Vasconcelos vai bem.

JC – Pefelistas e tucanos já iniciaram discussões sobre as chapas proporcionais, mas o PMDB só quer tratar disso em 2002. Isso tem gerado inquietação dos parlamentares, preocupados com a renovação do mandato. Por que tanta hesitação em abrir o debate eleitoral?

Dorany – Não se trata de hesitação. A inquietação existe e é natural. Evidente que estou solidário com meus companheiros de partido e com suas preocupações. Mas as articulações devem ser feitas fora da mídia. Não serei hipócrita de dizer que não estamos conversando. Mas não externamos porque não há necessidade de se antecipar a divulgação de estratégias que são feitas em benefício do todo, do conjunto e, portanto, beneficiam a cada um que integra esse conjunto. Estamos cuidando disso, mas não em público. Se a eleição é em 2002, só externaremos em 2002.

JC – O PMDB tenta aparentar unidade, mas vozes importantes, como alguns parlamentares, têm questionado a condução partidária e criticado a falta de diálogo. Está difícil acalmar os ânimos?

Dorany – Não há exaltação de ânimos. Temos divergências internas, mas temos know-how em administrá-las. Como o MDB, no bipartidarismo, era uma federação de partidos, aprendemos a conviver com pessoas que têm divergências, mas cujas convergências são maiores. Acho saudáveis as divergências, de modo que, se há falhas de nossa parte, estamos dispostos a fazer uma revisão e procurar um consenso no que for possível. Eu não tenho me sentido agredido por ninguém. Agora, há divergências e vai continuar a haver, porque vivemos em uma democracia. A unanimidade é o produto das ditaduras, que graças a Deus, já derrubamos. Agora, fica difícil quando as divergências são tratadas na imprensa. Têm que ser tratadas dentro da legenda.

JC – Então está mesmo faltando diálogo dentro do partido?

Dorany – Isso jamais faltou. Agora, há pessoas que criticam, que alegam falta de articulação e insucesso eleitoral, mas não estiveram sequer em nosso palanque. Aí sim, não dá para conversar desse modo.

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Jornal do Commercio
Recife - 20.05.2001
Domingo